Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008

A visão sobre a cegueira

É uma estreia incontornável. Depois de tanta polémica, diz-que-disse e críticas, Ensaio Sobre a Cegueira chega às nossas salas de cinema. A verdade é que, nem é preciso discutir a qualidade do filme (isso não está em causa) para dizer que não tenho vontade de o rever. Sim, é bom, mas sim, é muito duro. Deixo-vos as notas que estiveram hoje publicadas no sítio do costume.

 

Muitos diziam ser inadaptável ao cinema, José Saramago negou dezenas de vezes ceder os direitos de adaptação e, mesmo os interessados em pegar no livro e transformá-lo em filme admitiam ter pela frente um desafio quase impossível: criar imagens sobre um mundo em que (quase) todos são cegos. Depois de muitos «nãos» do escritor e de um longo percurso com ajustes e reajustes por parte do realizador do filme, Ensaio Sobre a Cegueira passou finalmente da escrita às imagens em movimento e chega agora às salas de cinema. Para ver como é difícil ter uma visão sobre um mundo em que (quase) ninguém vê.

Numa praça, vista do topo, apinhada de carros em hora de ponta, um condutor causa o caos. Subitamente deixou de ver. Os momentos de abertura de Ensaio Sobre a Cegueira, o filme, mostram precisamente o início da praga e a reacção dos que, ainda não afectados, estão à volta. A epidemia cresce dali e vai tocando em todos os que se vão cruzando com esta doença contagiosa que tira a visão a quem é afectado por ela. Não como se ficasse tudo escuro, mas como se ficasse tudo branco, cheio de luz.

Foi o português José Saramago quem criou a alegoria e ensaiou sobre os efeitos que a catástrofe teria em sociedade. O que aconteceria se, de repente, o mundo cegasse? As ideias do Nobel da Literatura são objectivas: os humanos cairiam numa espécie de regressão até um estado hiper-selvagem em que sentimentos como a compaixão ou a entre-ajuda são deitados à sarjeta para darem lugar a uma crua e básica luta pela sobrevivência, em que as guerras pelo poder usam argumentos mesquinhos e animalescos. Mas, no meio dos cegos, há uma (e apenas uma) mulher que carrega o fardo mais pesado de todos: é a única que não perdeu a visão.

 

José Saramago, homem desconfiado e apegado à sua obra, sempre tinha negado ceder os direitos de adaptação de Ensaio Sobre a Cegueira porque apenas daria um sim a quem preenchesse requisitos muito específicos. O autor queria que o filme pudesse ser feito com meios do tamanho de Hollywood mas não queria que chegasse ao cinema ao jeito americano, caindo nas mãos de um grande estúdio. Foi apenas quando o produtor canadiano, Niv Fichman, acompanhado do argumentista Don McKellar, foi visitar Saramago a Lanzarote que ele concordou em deixá-los partir para a fita porque achou simplesmente que «eles pareciam pessoas sérias e honestas». À equipa, faltava um cineasta de coragem para pegar na tarefa. O contemplado com o convite seria alguém que, anos antes, tentado adaptar a obra: o brasileiro Fernando Meirelles (Cidade de Deus, O Fiel Jardineiro).

 

O resultado do longo processo de negociação e de produção chega agora às salas de cinema, numa versão diferente da que foi estreada em Cannes, e que o realizador achou não ser a que tinha idealizado.

 

Ensaio Sobre a Cegueira é um filme perto da estética a que Fernando Meirelles já nos habituou, crua e realista, visão que seria indispensável num filme cuja premissa reúne, só por si, as mesmas características. Embora Meirelles diga que prefere «sugerir em vez de mostrar» explicitamente a violência no seu estado mais básico, a verdade é que Ensaio Sobre a Cegueira é uma fita tão rija e violenta que, não estando em causa a sua qualidade, dificilmente deixará algum espectador com um sorriso de satisfação no final. Não se coloca em questão o talento de quem dirigiu que, com a difícil tarefa de criar imagens num mundo onde apenas uma pessoa consegue ver, engendrou o possível, fazendo algumas opções estéticas interessantes como o branco queimado presente em todo o filme e algumas coreografias de corpos que resultam no meio do caos. No entanto, a película agradará mais aos que são adeptos do universo que Saramago criou e menos aos que serão apanhados de surpresa com a desumanidade palpável da história.

 

Quanto aos actores que, tal como no livro, interpretam personagens sem nome, designadas pelo papel que desempenham naquele meio social, há a destacar o desempenho de Juliane Moore, a mulher a quem é dada a responsabilidade de ser a única a ver e de Danny Glover, o homem que prefere continuar cego por que foi no meio da cegueira que encontrou um sentido para a vida.

 

Para ver, reflectir, apreciar as opções de Fernando Meirelles e depois, sair da sala, e entrar na porta ao lado para assistir a algo mais leve. Só para que nessa noite, o sono não deixe de ser descansado.

 

De caminho, ficam as entrevistas que fizemos a Fernando Meirelles e a Niv Fichman. Boas conversas.

 

 

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 21:53
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Quinta-feira, 6 de Novembro de 2008

O Bond mais duro

O ritmo dos últimos dias aqui para estas bandas tem muito que ver com a velocidade em que decorre a indiscutível estreia desta semana: 007, Quantum of Solace. O tempo não tem abundado, a energia vai-se sumindo com o sono que não é posto em dia mas ainda há uma réstia para fazer tudo o que vai faltando. James Bond, é claro, não podia passar despercebido. Fica aqui o artigo sobre o filme que está agora publicado no sítio do costume e um vídeo feito para o mesmo estaminé com alguns bons momentos da saga.

 

Já lá vão 22 filmes desde que 007 - Agente Secreto (Dr. No) apresentou ao cinema a expressão feita: Bond, James Bond. Meia dúzia de actores e algumas dezenas de Bond Girls depois, chega-nos 007 – Quantum of Solace, de novo com Daniel Craig à cabeça e, desta feita, com um realizador que, até aqui, se tinha aventurado em universos bem diferentes, Marc Forster. Ainda que comparar adaptações cinematográficas da saga 007 seja uma tarefa mais árdua do que escolher o sabor de gelado de que se gosta mais, atrevemo-nos e dizemos que Quantum of Solace é o mais duro e mais implacavelmente frenético filme da série. Para ficar colado à cadeira, quase não respirar e sentir nos olhos as feridas que este Bond sentiu na pele…à séria.

 

As expectativas em torno de 007 – Quantum of Solace eram elevadas, facto irreparavelmente inevitável a cada tomo que o cinema recebe da obra de Ian Fleming. Neste caso, o que se aguardava era o seguimento de Casino Royale, filme de Martin Campbell que tinha, em certa medida, marcado uma nova era na série, com um novo actor a encarnar um Bond muito personalizado e uma renovação na fita para um tom mais escuro e pessoal.

 

E as dúvidas eram inevitáveis. Seria este apenas um filme de transição a fazer a ponte depois do desgosto amoroso de Bond? Daniel Craig que, depois da estreia de Casino Royale, tinha calado todas as vozes críticas que se tinham virado contra si, estaria de novo em forma? E Marc Forster, cineasta de incursões ultra-imaginativas (À Procura da Terra do Nunca, O Menino de Cabul), seria capaz de domar bem este novo mundo de acção ininterrupta com um toque de classe? As respostas são dúbias: sim e não.

 

Em 007 – Quantum of Solace encontramos o agente ao serviço de Sua Majestade numa luta interior entre a sua sede de vingança - pela morte de Vesper Lynd, única mulher com o condão de atacar o coração de Bond - e o seu dever de agente com ordem para matar.

Com M (Judi Dench) a servir-lhe mais de mãe do que de oficial superior, Bond parte em busca dos que obrigaram Vesper a traí-lo, cruzando-se no caminho do negociante sem escrúpulos Dominic Greene (Mathieu Almaric). Mas a raiva acumulada de Bond coloca em risco a missão que tem em mãos para desmantelar a organização liderada por Greene, sob o nome de Quantum. É precisamente aqui que a teia começa a adensar-se.

 

As obrigatórias Bond Girls, neste caso, Gemma Arterton e Olga Kurylenko, esta última representando uma espécie de equivalente feminino de Bond, não são suficientemente carismáticas e, nesse sentido, não são sucessoras à altura da classe de Eva Green. Apesar disso, o protagonista continua a ser o agente mais duro, cru e cruel na história de todos os 007, com mérito para que muitos digam que é o único a conseguir fazer frente a Sean Connery.

 

Quanto às respostas às dúvidas que se levantavam, sim, este é claramente um filme de transição que não é, no entanto, menor por esse motivo. Pega nas pontas caídas em Casino Royale mas não se fica por aí e gera nova vida a partir do que ficou para trás.

 

Sim, Marc Forster adapta-se bem à nova realidade de explosões e sequências de acção carregadas de stunts, embora construa uma primeira parte demasiado irrespirável que acaba por ser mais um somatório de perseguições filmadas para causar problemas na vista do que uma história sobre um homem enraivecido.

 

Mas descansem os fãs: lá para meio, o ritmo acalma e aquieta também o espectador que deixa de sentir a dor das feridas de Bond para passar a dar mais atenção às que não estão à vista nem sangram. Recorde-se, apenas para registo, que Daniel Craig foi recentemente operado à clavícula e precisa de passar por operações plásticas para remover algumas das cicatrizes acumuladas enquanto fazia de seu próprio duplo.

 

Estará decerto em forma para os próximos filmes que já estão previstos no seu contrato. É que Daniel Craig é mesmo, indiscutivelmente, sem qualquer margem para dúvidas, o novo grande Bond.

 

 

 

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 16:27
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Quinta-feira, 23 de Outubro de 2008

Esta semana não podia ser outro

W. tinha de ser a primeira estreia desta semana ter um espaço reservado no Elite. Porque marca o regresso de Oliver Stone e porque tem, logo à partida, a tarefa mais difícil que o cinema se atreveu a levar a cabo nos últimos tempos: fazer um retrato de um homem sobre quem toda a gente tem um bitaite para mandar. Aqui fica o artigo que está a esta hora publicado no sítio do costume.

 

Entre a fase em que andava perdido no álcool, os tempos de marialva texano e a era em que se tornou um cristão presidente, George W. Bush nunca deixou de ser uma coisa: um fã de basebol. W. é diminutivo para todas essas partes de um homem cujo retrato é quase impossível de se fazer. Oliver Stone arregaçou as mangas, foi até à boca do lobo e fez um filme biográfico sobre o presidente dos Estados Unidos ainda em exercício. Podia ter batido ainda mais no ceguinho mas optou pelo caminho mais difícil (e talvez o mais justo). Chamou-o de estúpido mas não negou as razões que fizeram dele este W., este George W. Bush.

W. chega aos cinemas numa altura estratégica. A mais perfeita para o lançar, diriam alguns, ou a mais arriscada, afirmam outros, para se estrear um filme sobre um presidente de decisões duvidosas, desprezado pela opinião pública e preso por fios a governar um país em transição política.

Mas Oliver Stone não é um homem de medos, já se sabe, e escolheu o momento que lhe pareceu mais assertivo para trazer a público o seu retrato de W.. A história vai desde os tempos em que era apenas um dos filhos de George Bush, passando pelas incursões alcoólicas e pela dedicação à religião e terminando no lugar mais improvável, por teimosia, motivação ou apenas por orgulho: a Casa Branca.

Com o nome de Oliver Stone associado, os burburinhos sobre o quão destrutiva iria ser a imagem de Bush passada no filme não demoraram a aparecer. O próprio Stone admitiu que iria ser uma biografia crítica. Mas, na semana passada, quando W. estreou nos Estados Unidos, a surpresa foi geral. Um jornal de referência usou mesmo a expressão «spooked» para dizer que o realizador se tinha assustado com a tarefa e tinha amolecido o seu olhar crítico.

Por aqui tendemos a achar que ele não se amedrontou, apenas preferiu ir pela estrada mais tortuosa e mostrar que nem tudo é tão linear sobre a estupidez de George W. Bush quanto a estupidez visível de George W. Bush. O mesmo cineasta responsável por JFK e Nixon tinha optado por mostrar o Bush que se engasga com um amendoim, tem enormes ressacas e toma as mais importantes decisões com base em crenças mal fundamentadas mas, ao mesmo tempo, acompanha a sua luta impossível para agradar ao pai e para estar à altura do irmão exemplar e os seus dramas psicológicos agravados com o álcool e ajudados pela religião.

W. é, como sempre na cinematografia de Stone, um exemplo exímio de como movimentar um câmara, sempre com um olhar intrusivo junto de alguém sobre quem toda a gente tem uma palavra a dizer, aqui a oscilar entre as faces de um tonto sem perfil para estar no seu cargo e de alguém que sempre reprimiu as suas verdadeiras ambições e sempre se escondeu atrás de uma máscara que não corresponde à real. É que, no fim de contas, aquilo de que ele gosta mesmo é de basebol.

A suportar o filme há um elenco irrepreensível liderado por um Josh Brolin totalmente em personagem e com interpretações exemplares à sua volta de James Cromwell (Bush pai), Ellen Burstyn (Barbara Bush), Richard Dreyfuss (Dick Cheney) ou Toby Jones (Karl Rove).

Podemos acusar Oliver Stone de parecer ter tido tanta dificuldade em fazer essa pintura de contrastes, de ter lutado tanto para acertar o tom que, em última instância, o lado de compaixão em relação a Bush não parece ao espectador uma marca de honestidade do realizador. Mas isso não tira a W. o mérito de olhar sobre a História quando ela ainda está a ser feita. E isso, só o sem-medos Oliver Stone podia ter feito.

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 11:06
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Terça-feira, 21 de Outubro de 2008

A TV também abre o apetite

Quando se fala de James Bond e de Quantum of Solace não há quem precise de grandes argumentos para aguçar ainda mais a curiosidade sobre o resultado mas, em caso de dúvida, aqui vai o novo trailer do filme destinado ao pequeno ecrã.

 

 

 

Confesso que ontem, quando li a crítica da Empire, o meu dedo mindinho da mão direita sofreu um ligeiro tremelique. Isto porque o facto de a fita ter sido contemplada com 4 estrelas mas com um discurso que parece tudo menos convencido, não augura nada de bom.

 

Quase consigo voltar atrás uns meses quando a mesma publicação parecia querer tanto gostar de Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull que não quis sová-lo assumidamente mas deixou transparecer no texto o facto de não gostar assim tanto quanto gostaria de gostar (bela uso em série de palavrinhas, hein?).

 

Aguardemos. Pode ser apenas paranóia minha.

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 21:40
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Quinta-feira, 16 de Outubro de 2008

Um concerto para os fãs

Das três estreias desta semana ainda apenas consegui deitar a mão a Lou Reed - Berlim (com muita pena minha, visto que um dos títulos em cartaz é o novo filme de Cédric Klapisch, Paris). Retomando a normalidade nos artigos opinativos, aqui ficam as notas sobre Lou Reed - Berlim publicadas à hora em que escrevo este post no sítio do costume.

 

Quando foi lançado em 1973, a revista Rolling Stone chamou ao álbum de Lou Reed, Berlin, «notoriamente ofensivo». Com o passar dos anos, houve quem elevasse ao estatuto de obra-prima o disco sobre a podridão de um casal de toxicodependentes. Uma obra-prima que nunca tinha sido tocada ao vivo mas que teria o seu momento em 2006 quando, apenas por cinco noites, Lou Reed tocaria Berlin ao vivo no St. Ann's Warehouse em Brooklyn, Nova Iorque. O realizador Julian Schnabel não deixou escapar o momento, instalou-se, fez cenários, pôs a filha a criar vídeos e filmou o inédito.

Caroline e Jim são um casal de toxicodependentes com tendências ninfomaníacas que cobrem o fundo do palco em imagens cheias de grão, quase queimadas. É uma sujidade estilística que a filha do realizador Julian Schnabel, Lola, convidada pelo pai para filmar os curtos segmentos que acompanhariam o concerto, parece ter achado adequada para vestir os seres decadentes que Lou Reed decidiu cantar.

Lou Reed – Berlim podia até ser uma viagem pelos meandros mais desconhecidos de uma personagem, real e icónica, tão cool quanto misteriosa, mas é apenas um filme-concerto para um público que abrange os fãs de Lou Reed e exclui todos os restantes grupos. Não é um documentário, não é um filme-concerto com intervalos documentais, é apenas um espectáculo que tem uma história para contar porque usa o enredo do próprio álbum apresentado e, por isso, tem personagens, tem canções que as acompanham e tem vídeos para as ilustrar. E, claro, em palco, tem o incontornável Lou Reed.

Julian Schnabel (O Escafandro e a Borboleta, Antes que Anoiteça), cineasta com o condão de dividir opiniões, volta aqui a usar o sua propensão para o olhar intimista, como se a câmara se intrometesse e se tornasse uma espia no meio do palco ou entre o público. Não só dirige o filme como assina também os cenários para o palco mas o seu olhar sobre o concerto é apenas isso: um relato de uma noite. Na verdade Lou Reed – Berlim não traz nada de surpreendente nem se atreve pelo íntimo do músico, ficando-se apenas pelo registo de um acontecimento inédito.

A actriz Emannuelle Seigner (Frantic e O Escafandro e a Borboleta) é a convidada para para servir de protagonista na sombra da verdadeira estrela, como a viciada Caroline, mas, em palco, também há outros protagonistas. Para além da estrela maior, acompanham Reed vozes como a de Antony, que geralmente tem o seu nome acompanhado por the Johnsons, a fazer um brilharete e a adocicar a canção Candy Says, para além de Fernando Saunders e Sharon Jones e não esquecendo o Brooklyn Youth Chorus, que junta os sons infantis à mais gasta e experiente das vozes.

São músicas adormecidas, que ficaram em disco durante 33 anos, aqui tocadas apenas por cinco noites. O resultado é um concerto registado por uma câmara inteligente, numa actuação irrepreensível que fará delirar os fãs de Lou Reed mas que não servirá os gostos dos restantes. Ele é cool…mas não chega para tanto.

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 11:10
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Sexta-feira, 10 de Outubro de 2008

Chamem-nos de idiotas. Eles não se importam.

 

Porque as férias se intrometeram, porque o regresso ao trabalho é sempre uma correria e porque, por arrasto, as idas a visionamentos passaram quase a não se verificar, o Elite não tem andado com o habitual ritmo de textos opinativos sobre estreias. Pois hoje recomeça a enchente com um dos filmes que vos estou a dever, Destruir Depois de Ler, a mais recente comédia idiótica (no bom sentido) dos manos Coen que, naturalmente, não passa despercebida pelos olhos desta vossa amiga.

 

Roubando o estilo à Empire, atrevo-me a começar por deixar o veredicto: ainda que não atinja o divino nem ande muito perto das nuvens, é a melhor comédia dos Coen desde Irmão, Onde Estás? e prova que a dupla não esqueceu que sabe do género onde tem mais incursões depois do sucesso do reluzente Este País Não é Para Velhos. Os responsáveis? Todos os idiotas que os Coen fizeram nascer para cada um dos protagonistas do filme.


Este País Não é Para Velhos deixou até os mais cépticos convencidos com o cinema de Joel e Ethan Coen mas, no que a comédias diz respeito, já desde Irmão, Onde Estás? que os realizadores não acertavam o tom. Vejam-se os exemplos de The Ladykillers ou Crueldade Intolerável.

Com Destruir Depois de Ler os Coen  voltaram a desenhar retratos de idiotas azarados e fizeram-no com os actores certos em mente (apenas o papel de Tilda Swinton não foi feito à medida para ela). O resultado da confecção personalizada está à vista e é, em última instância, o que confere à fita a sua característica mais preciosa.

 

A história é, como manda a lei, estapafúrdia e, consequentemente, muito divertida. Dois empregados de ginásio, interpretados por um irreconhecível e cada vez mais jovem Brad Pitt e por uma sempre irrepreensível Frances McDormand, encontram um CD com as memórias de um agente da CIA e, na sua santa malandrice ingénua, acham que podem fazer dinheiro com ele.

 

O novelo de lã aumenta a tal ponto que leva a jogo a preguiçosa direcção da agência (um sempre cáustico J.K. Simmons com David Rasche ao seu lado), um mulherengo de bairro que tem uma arma mas nunca a usou na vida (George Clooney) e, claro, o autor das memórias, o analista Osbourne Cox (John Malkovich).

 

Apesar de o ritmo criativo nos cérebros de Joel e Ethan Coen parecer ser quase sempre mais acelerado do que o do comum dos mortais, fazendo com que se notem alguns buracos a nível de argumento em certos momentos do filme, Destruir Depois de Ler é um somatório tão delicioso de bons e alucinados trabalhos de representação acompanhados por uma lista imensa de críticas sem papas na língua que faz dele um filme imperdível. Cheio de idiotas, repleto de idiotices mas aconselhável aos que não se enquadram nessa categoria.

 

Nota: Vale a pena ler na Empire um artigo sobre a conferência de imprensa que realizadores e elenco deram no Festival de Veneza sobre o filme, com verdadeiros idiotas presentes. Desde a moça que convidou Brad Pitt para fazer ginástica com ela à criatura que não parava de fazer perguntas sobre os gémeos do casal Pitt/Jolie, o circo teve de tudo.

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 10:12
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Quinta-feira, 4 de Setembro de 2008

A cantarolar ABBA

É que não há hipótese. Uma semana de ABBA na cabeça, no mínimo. Aqui fica o artigo publicado hoje no SAPO sobre Mamma Mia!.

 

Sim, é kitsch (eufemismo vulgarmente usado quando o adjectivo foleiro parece assentar mal). Sim, é meloso, lamechas, docinho e mais todas as qualificações que envolvam doses massivas de açúcar. Sim, é estranho ver um elenco de dezenas invadir uma ilha grega a cantar como se estivesse num palco de madeira. Mas sim, é divertidíssimo, ritmado, nostálgico e deixa até o mais cinzentão com o pé a bater no chão e uma incontrolável de começar a cantarolar «Mamma Mia, here I go again». Vamos a isso outra vez. Aos ABBA.

Já foi uma das bandas mais populares e desavergonhadas do planeta. Depois foi promovida a grupo mais piroso com legado na história da música. Agora, parece progressivamente voltar a ser aceite, a estar em voga, ainda que a moda traga quase sempre atrelado o termo kitsch, para não parecer mal. Depois do bem sucedido musical de palco, que não pára de esgotar salas por todo o mundo desde 1999, os ABBA chegam ao cinema em Mamma Mia!,  com Phyllida Lloyd a assinar a realização.

Logo à partida, ter Meryl Streep a encabeçar um elenco confere a qualquer filme um selo cego de qualidade inquestionável e, de facto, a veterana é quase sempre irrepreensível. Depois, juntar Colin Firth, Pierce Brosnan e Stellan Skarsgard como pares masculinos da estrela também é obra e, pelo menos, aguça a curiosidade. E, claro, as músicas dos ABBA, quer funcionem como atracção ou motivo de repulsa, garantem, por uma ou outra razão, muitas pessoas no cinema.

Aqui, o musical é criado a partir de canções e não ao contrário, como na maioria das vezes acontece, e, por isso, foi preciso criar uma narrativa que encaixasse nas letras de Benny Andersson e Björn Ulvaeus. A história reza assim: Sophie (Amanda Seyfried) está prestes a fazer a longa caminhada até ao altar e, como qualquer noiva de preceito, quer que o pai a guie. O problema é que a jovem não sabe quem é o seu pai, apenas sabe que não tem mãos que cheguem para contar os homens com quem a mãe dormiu e que tem três progenitores possíveis. O drama: convida-os a todos para a boda na esperança de, por algum milagre, descobrir quem partilha o seu ADN.

O perigo de qualquer peça de teatro ou musical adaptados ao cinema é não serem pensados para o grande ecrã e manterem a mesma estrutura que usavam no palco, como se se tratassem apenas de uma filmagem de um espectáculo. A verdade é que, por vezes, em Mamma Mia! sentimos que é bizarro ver aqueles números coreografados numa ilha grega e que é estranho ver Meryl Streep a abrir uma janela para começar a cantar, mas toda a película parece estar tão dedicada àquela envolvência que tais cenários acabam por fazer sentido.

Meryl Streep é o motor atrás do qual a restante caravana se vai movendo, com a novidade Amanda Seyfried a mostrar que tem fôlego para um papel principal, Colin Firth a provar que também sabe fugir ao seu registo habitual de «sou-tão-bem-comportado» e entrar na paródia e Stellan Skarsgard a sair do seu normal circuito independente para fazer um musical. Quanto a Pierce Brosnan, bom…digamos com a voz que tem nunca conseguiria editora para assinar contrato.

Estão lá todos os números desde o que dá o nome ao filme, passando pelo persistente Dancing Queen ou um muito divertido Take a Chance on Me e até um trautear disfarçado de Fernando. Quem não ficar a cantarolar as canções dos ABBA nos dias seguintes que atire a primeira pedra. Confessemo-nos e deixemo-nos de «kitschices»: sim, é assumidamente foleiro mas nós assumimos que gostamos.

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 18:07
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Quinta-feira, 28 de Agosto de 2008

Aviso Prévio

Evitem lá isto, se fazem favor!

 

Parece haver uma enorme dificuldade por aí em distinguir acção da boa de montagem frenética sem tempo para perceber o que estamos a ver. Agora sim, as notas sobre Babylon A.D.

 

Diz quem sabe que o tempo mínimo para se perceber claramente uma imagem é de três segundos. Na acção supostamente frenética de Babylon A.D. Mathiew Kassovitz quis quebrar a regra e arriscou-se a provocar cegueira nos espectadores. O filme é uma visão catastrófica do futuro cujo destino está nas mãos de um herói às três pancadas com a missão de proteger uma salvadora embevecida com os seus abdominais. Parece que o mundo está mesmo para acabar.

Ficção científica com muita acção pelo meio e uma premissa cujo potencial foi desperdiçado. Thoorop (Vin Diesel), um mercenário a soldo, é contratado por Gorsky (um Gérard Depardieu de cara deformada) para escoltar a jovem e misteriosa Aurora (Mélanie Thierry) para fora da Rússia e até aos Estados Unidos. A acompanhar a rapariga está a freira Rebeka (Michelle Yeoh, que geralmente consegue sempre trazer algo de positivo ao mais fraco dos filmes), uma protectora que se recusa a revelar qualquer pormenor sobre Aurora. Acontece que a jovem de rosto inocente tem mais que se lhe diga e representa para a humanidade bem mais do que uma cara bonita.

O potencial deste que até poderia tornar-se num interessante filme-catástrofe a explorar os abusos do Homem é atirado para uma espiral de acção sem alma nem coração, de montagem à velocidade de um carro de Fórmula 1 e com algumas cenas disparatas que não lhe acrescentam qualquer ponto. Vin Diesel falha redondamente o papel de herói salvador e nem a sempre fantástica Michelle Yeoh consegue salvar a desgraça anunciada.

Quanto ao realizador Mathew Kassovitz, com títulos interessantes na sua carreira como O Ódio e Assassino(s) mas que, nos últimos tempos, não tem tido a melhor das sortes (Gothika é um dos maus exemplos), volta a não conseguir um resultado mais do que sofrível. O cineasta e actor já confessou em entrevista que a produção da fita correu com demasiados problemas e que o produto está muito distante daquele que tinha idealizado. Acreditamos que está mesmo e preferimos lembrar-nos do realizador na sua face de actor em O Fabuloso Destino de Amélie.

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 18:04
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Mergulhamos nesta ilha?

Como habitualmente à quinta-feira, começa a chuva de notas sobre as estreias. Como estou bem disposta vamos inaugurar as festas com Nim's Island. Deixo-vos o artigo saído do sítio do costume.

 

Quem disse que as ideias mais simples já não convenciam ninguém? Nesta ilha há animaizinhos, uma criancinha sonhadora e um pai aventureiro. Para trás, muito terreno a desbravar. Há dias em que o mais infanto-juvenil e ingénuo dos contos pode saber bem ao mais sério dos adultos. Junte-se um pouco de criatividade visual a uma história simples, some-se Abigail Breslin e Jodie Foster e o que podia ser medíocre passa a apetecível. Recomendam-se umas férias nesta ilha.

Nim (Abigail Breslin) é uma miúda de 11 anos com uma vida muito invulgar. Mora com o pai (Gerard Butler) numa ilha deserta (e secreta, tanto quanto possível) numa reclusão iniciada depois da perda da mãe. Jack Rusoe, o pai, é biólogo marinho e faz das cerca de 490382 espécies diferentes que por ali pairam o seu objecto de estudo enquanto Nim vai lendo pilhas de livros e estudando o que aprenderia numa escola com a fauna do sítio a fazer-lhe companhia. Um mundo fechado com algum, mas muito escasso, contacto com a civilização, onde os dois construíram o seu paraíso e onde a pequena Nim fantasia com o seu herói aventureiro (na literatura), Alex Rover (também com corpo de Gerard Butler).

Claro que falta um ingrediente para trazer desgoverno ao sítio e é por isso que surge o nome de Alexandra Rover (Jodie Foster), agorafóbica sem limites, não sai de casa há uns bons séculos e coloca na personagem dos seus livros, o dito aventureiro, todas as características que gostaria de ter mas não tem.

É certo que o filme, baseado no livro de Wendy Orr, se destina a um público de idade tenra e, por isso, não terá muito de realista e andará muito perto do tom «algodão doce», mas os pais que acompanharem os mais pequenos ou os adultos que estiverem com espírito de tarde de Domingo, não sairão desiludidos.

Abigail Breslin tem sido notável nos seus desempenhos (em Little Miss Sunshine – Uma Família à beira de um ataque de nervos, Sinais e Para sempre, Talvez) e aqui volta a não dar motivos para que alguém a considere apenas uma estrela juvenil sem grande futuro, dando cor à ilha com a sua deliciosa inocência e talento ainda em potência.

Depois há Jodie Foster, que não estamos habituados a ver no lado cómico das coisas mas que, aqui, parece ter embarcado no projecto só pelo gozo da coisa. E sente-se o júbilo a cada cena em que ela mostra as suas impaciências ou lava as mãos com o gel desinfectante pelo qual tem uma insana obsessão.

Faça-se a mala e dê-se um pulinho a esta ilha. Claro que, como em quaisquer férias, só sabe bem ficar fora da civilização por uns dias. Porque este A Ilha de Nim não chegou ao mundo para fazer história no cinema. Apenas é uma boa escapadela para descontrair do stress da cidade.

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 16:15
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Quinta-feira, 21 de Agosto de 2008

É do Inferno!

Não é só um dos filmes do Verão é bem capaz de ser um dos mais jeitosos do ano (pelo menos até agora). Hellboy II: O Exército Dourado é, sem dúvida, a estreia da semana e merece pompa e circunstância aqui no Elite.

 

É por isso que, para além do habitual artigo publicado no sítio do costume que aqui deixo sempre, vamos ter também neste post dedicado a Red e amigos, um vídeo com uma das melhores cenas do filme. Hilariante, profunda, redentora. Ora leiam e depois vejam.

 

Um filho do Diabo com chifres vermelhos, uma criatura anfíbia com olhos alienígenas e uma aparente frágil rapariga com dotes incendiários. As personagens podiam bem pertencer à equipa dos maus da fita mas em Hellboy II: O Exército Dourado estão de regresso para voltar a provar que são antes heróis improváveis, incompreendidos, de costas voltadas para o mundo, mas muito, muito, úteis. Guillermo Del Toro volta a fazer um bolo em camadas, com muito de adaptação hollywoodesca de uma BD e de um imaginário, à espreita a cada esquina, digno do mais célebre conto de fadas. Se todos os demónios fossem assim, bem que podíamos gostar de estar no Inferno.

É sempre uma tarefa complicada dar a atenção devida a todas as personagens num filme que tem a obrigação de as apresentar. Hellboy (2004) era um óptimo cartão de visita que dava a conhecer no cinema a história de Red (Ron Pearlman), um demónio de aparência infernal criado por Nazis durante a Segunda Guerra Mundial que acabaria por se virar para o lado iluminado dos Aliados e viria a servir a causa do bem. No entanto, a fita deixava o espectador com água na boca. Com vontade de mais.

Para preencher o vazio chega agora este Hellboy II: O Exército Dourado, com mais de Red e companhia, com mais para além de nos deslumbrar através dos poderes das criaturas paranormais e com muito mais do que cenas heróicas em que seres improvavelmente bons salvam comuns mortais.

O gabinete de pesquisa paranormal que acolhe Red, Abe Sapien (Doug Jones) e Liz (Selma Blair), agora muito mais habituados à sua casa, onde o espectador poderá assistir a cenas divertidíssimas de interacção entre humanos e criaturas, continuam a debater-se diariamente com a não aceitação num mundo que teme aberrações como eles. A equipa ganha ainda um novo membro de sotaque germânico: Johann Krauss (Seth MacFarlane) para colocar rédea curta no habitualmente arruaceiro Red e para se juntar à batalha que se avizinha.

Acontece que um ambicioso príncipe elfo, Nuada (Luke Goss) quer ressuscitar um indestrutível exército dourado para assim obter a supremacia das criaturas ocultas sobre a Humanidade. Com a ajuda de Nuala (Anna Walton), a irmã gémea do príncipe e novo interesse amoroso de Abe Sapien, Red e companhia terão de responder ao desafio e safar o couro à Terra. O mesmo planeta que os teme mas não nega que precisa deles.

O equílibrio que o cada vez mais impressionante realizador Guillermo Del Toro conseguiu com Hellboy II: O Exército Dourado é notável. O filme é um regalo para a vista que consegue conjugar na perfeição as figuras de heróis (não muito super) retirados de uma BD bem como os monstros vindos de um mundo mágico, florestal e muito próximo dos contos de fadas (à semelhança do que vimos em O Labirinto do Fauno).

Para além disso, nenhuma personagem é deixada ao acaso, com os problemas na relação de Red a Liz a ser uma preocupação bem explicada, ao mesmo nível do papel de salvadores que os dois têm, e com Abe a mostrar um lado muito mais humano, falível e frágil.

Este artigo não poderia terminar sem uma referência a uma das cenas simultaneamente mais divertidas e esclarecedoras do filme na qual Red e Abe Sapien falam do quão difícil é entender as mulheres enquanto bebem cervejas como se o amanhã não existisse e cantarolam uma das músicas mais melosas de que nos conseguimos lembrar: I Can’t smile without you de Barry Manilow. Impossível não ficar com a canção na cabeça. Que a descrição deste quente momento de bonding masculino sirva para deixar o leitor com vontade de explorar este inferno, quente mas bondoso.

 

 

 

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 12:50
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Quinta-feira, 14 de Agosto de 2008

O derradeiro

Sem mais demoras nem grandes comentários, os meus apontamentos sobre Wall.e saídos ainda quentinhos do sítio do costume.


Não sobra mais ninguém no mundo mas nem o mundo sem ninguém resiste a Wall.E. Numa Terra destruída pela ganância humana, o último ser vivo com sentimentos é um robô movido a energia solar com uma obsessão por coleccionar os souvenirs mais inesperados e por uma cassete de vídeo com a gravação do filme Hello Dolly. As tarefas impossíveis para hoje são: resistir à sedução de Wall.E, ficar indiferente à fortíssima afirmação do filme e, claro, não fazer uma vénia a (mais um) irrepreensível trabalho da Pixar.

É a nona longa-metragem da Pixar e, nove vezes depois, um dos seus filmes volta a surpreender ao nível da animação, do argumento e, sobretudo, no que diz respeito à empatia que as personagens conseguem gerar. Desta vez, o objecto inanimado/ser que geralmente não tem grande vida é um robô de nome Wall.E, deixado para trás quando humanidade partiu da Terra, esgotada e em iminente destruição, e se esqueceu de o desligar.

Logo a abrir, a longa cena tão encantadora quanto impressionante que tem o intuito de dar a conhecer Wall.E, apresenta-o como um compactador de lixo solitário que todos os dias continua a fazer o trabalho para que foi programado, tendo apenas a companhia do seu animal de estimação: uma barata.

Mas é em cada final de dia que ele se revela no interior da sua casa improvisada onde arrecada todos os pedaços de objectos que vai recolhendo e o leitor de VHS que passa vezes sem conta uma cópia de Hello Dolly. É Eve, a robô com vestuário de iPod, quem vai chegar à Terra para quebrar a rotina de Wall.E e levá-lo numa viagem apaixonante por um amor electrónico.

A fita é realizada por Andrew Stanton, o mesmo que nos trouxe À Procura de Nemo ou Uma Vida de Insecto e conta com a participação de Ben Burtt a dirigir os efeitos sonoros, o histórico responsável, por exemplo, pela voz do pequeno robô de A Guerra das Estrelas, R2-D2.

O filme, com muito poucos diálogos e uma mensagem (ecológica) muito mais forte do que as de todos os outros filmes da Pixar, é, sem dúvida, o mais arriscado do espólio. É precisamente esse risco que o coloca num patamar transcendente. Sente-se, a cada passo, a inexistência de entraves criativos e um trabalho pensado por várias cabeças em sintonia. E o resultado não podia parecer melhor. Wall.E arranca rótulos e liberta-se de definições para se candidatar à lista de melhores filmes do ano, sejam ou não de animação. Não há quem se vá esquecer desta máquina, a mais terna, sincera e genuína do ano cinematográfico.

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 15:50
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Quinta-feira, 7 de Agosto de 2008

Nós bem que queríamos acreditar...

...mas este filme de Ficheiros Secretos não é mais do que um episódio prolongado numa versão menos astuta quando comparado com a série que fez furor na década de 90. Aqui ficam as notas habituais acabadas de publicar no estaminé de sempre.

 

O poster que Fox Mulder tinha no seu escritório está agora na parede de uma casa desarrumada, a casa de um renegado revoltado com o sistema e com a descrença do mesmo em relação a si. Mas o sistema precisa do agente uma última vez. Dele e da metade sem a qual não funciona: Dana Scully. Os dois vão embarcar num último episódio de Ficheiros Secretos, pela segunda vez no grande ecrã. No poster está escrito «Quero acreditar». Nós também queremos acreditar no filme mas este fenómeno tem pouco de paranormal...ou de fascinante.

«É um episódio em versão longa». A frase é frequente à saída de sessões onde acabaram de ser exibidas adaptações cinematográficas de séries. Este ano já tivemos direito, por exemplo, a longas-metragens de O Sexo e a Cidade e, nesta mesma semana, Get Smart – Olho Vivo.

Ficheiros Secretos – Quero Acreditar não é excepção e encaixa perfeitamente na definição da frase comum. Um episódio de uma hora e quarenta e cinco minutos para levar ao cinema os mais nostálgicos em relação à série ou os que, não sendo peritos em linguagem paranormal do FBI, se recordam dos nomes de Fox Mulder (David Duchovny) e Dana Scully (Gillian Anderson) como os dos agentes mais míticos dos anos 90.

A série exibida nos Estados Unidos entre 93 e 2002 sobre dois agentes do FBI, um deles crente em fenómenos paranormais e a outra uma cientista incrédula, que investigavam estranhos e inexplicáveis episódios, gerou um fenómeno de culto em todo o mundo e, até hoje, tem fãs espalhados pelos quatro cantos. Em 1998 teve direito a chegar ao cinema, ainda que num filme fraco, pelas mãos de Rob Bowman (realizador de Elektra e Reino de Fogo) e, agora, regressa sob a tutela do criador original dos episódios televisivos, Chris Carter, aqui a acumular as funções de argumentista e realizador.

No tomo de 2008, Mulder é chamado a intervir uma última vez numa investigação de um desaparecimento com contornos misteriosos pela agente Dakota Whitney (Amanda Peet). Para convencer o maior especialista (e crente) em fenómenos estranhos, é preciso, claro está, usar o trunfo Dana Scully, agora retirada da vida oficial e a exercer a profissão de médica num hospital religioso. A ajudar a inquirição está ainda um vidente ex-padre e pedófilo que ocupa o espaço de «burlão-ou-salvador» da fita.

Ficheiros Secretos – Quero Acreditar está um passo à frente do seu antecessor no cinema mas, ainda assim, não consegue ser mais do que uma reposição de um universo querido por muitos, sempre tentando introduzir alguns detalhes que só os fãs conhecerão (a presença de Walter Skinner e as referências à irmã de Mulder e ao filho com Scully dado para adopção).

No entanto, ao mesmo tempo, a necessidade de chegar até um público mais abrangente faz com que a película não assuma algumas das características mais obscuras da série perdendo, com isso, pontos importantes. Falta consistência ao argumento, credibilidade às personagens e, acima de tudo, uma verdadeira intenção para o filme. Uma que não seja regressar porque o retorno de Mulder e Scully levará decerto ao cinema suficientes espectadores para garantir o sucesso. Queremos acreditar com a mesma convicção de Mulder mas saímos tão cépticos quanto Scully.

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 11:58
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