Se Woody Allen não fosse tão cheio de maneirismos talvez não gostássemos tanto dele. E se o seu cinema não tivesse tanto dele, de tal forma que empresta a voz aos actores para que digam palavras saídas de si, talvez não o sentíssemos tão sincero. Mas é precisamente por ter tantas nuances em si que Allen é um realizador irregular. Não que possamos dizer que vá até ao mau mas, por vezes, e por temporadas, anda no morno e não consegue alcançar o bom. Depois de Match Point sentimos isso. Como se um novo filme de Woody Allen (aqui refiro-me a Scoop e O Sonho de Cassandra) fosse apenas uma estreia para cumprir calendário. Animem-se os aficionados. Ele está de volta em forma com Vicky Cristina Barcelona.
O cenário deste agora viajado cineasta, longe da sua adorada Nova Iorque, é a nossa cidade vizinha, Barcelona. Duas amigas americanas, cujos papéis couberam à já habitual Scarlett Johansson e a Rebecca Hall, decidem trocar o Verão dos Estados Unidos pelo sol de Barcelona. Durante um jantar de férias, é-lhes feito um convite em nada inocente que as duas acabam por aceitar. Acompanham então Juan Antonio (Javier Bardem), um pintor divorciado, ainda apegado à tresloucada ex-mulher, na ronda para ver se lhe calham novas experiências.
Vicky Cristina Barcelona é, para além de uma soma de cenas hilariantes e improváveis (Penélope Cruz nunca se viu tão do lado cómico), um ensaio sem travões sobre os defeitos nas relações. O cenário é quente, as personagens são intrigantes e os diálogos são alucinantes. E é tudo isso que faz dele um regresso de Woody Allen ao que ele sabe fazer melhor: este humor destravado e pitoresco que afinal tem um lado para se levar muito a sério.
Vicky Cristina Barcelona é Allen a pegar na caneta e a dar de si o que de melhor pode oferecer. Se não acharem tanto quanto eu, garanto, pelo menos, uma boa dose de gargalhadas.