Com Rasganço (2001), a jovem cineasta Raquel Freire já tinha demonstrado o seu ponto de vista muito particular sobre o que é fazer cinema mas nada do que ali se viu preparou o espectador para o que estaria para chegar aos cinemas este ano com Veneno Cura.
Se é saudável que em Portugal haja cada vez mais realizadores ambiciosos, carregados de motivação e prontos a não vergar a sua visão a interesses que nada têm a ver com a qualidade artística da sua obra, também é um facto que, se esse factor não é usado com conta, peso e medida, o resultado pode ser algo como esta última fita de Raquel Freire. Veneno Cura é um filme para dentro, feito pela cineasta para ela própria, e de costas voltadas para o público. É que, por mais que as boas intenções e as ideias com potencial, possam estar na linha de partida, nada disso interessa se, à chegada, o produto não for mais do que uma afirmação de autor pretensiosa e sem a ambição de, para além disso, ser uma obra cinematográfica com pés e cabeça.
Veneno Cura é uma soma de fragmentos em que a autora deixa as suas reflexões sobre o amor, a morte, a perda e a sobrevivência às desgraças da vida. Diz Raquel Freire que fez este filme porque acredita no amor, mas nada em Veneno Cura nos diz que Freire tem alguma réstia de fé no que quer que seja, nem mesmo a fé em que o cinema português interesse ao público.
Atraiçoado pelas temáticas mais do que gastas (a prostituição, o suicídio, a tragédia da mãe solteira ou do amor não correspondido), pelos diálogos escritos com recurso aos lugares comuns em que a cineasta parecia não querer cair ou pela condução fragmentada da realizadora que faz com que o filme seja apenas uma soma de partes e não um todo coerente, Veneno Cura é mais uma prova de que o cinema português é feito de extremos. De um lado, os que tentam fazer dele apenas um negócio, do outro os que o querem tornar numa arte para nichos. O mérito reside antes nos que se chegam à frente para propor um meio-termo.