Começo com o alerta de que é pecaminosa a tradução de Bolt mas, como não há outra hipótese de o ver em 3D, lá teremos de nos contentar. Aqui ficam algumas notas sobre o filme saídas agora do sítio do costume.
E se um actor acreditasse ser realmente uma das personagens que interpreta? Se vivesse toda a sua vida numa farsa em que acredita piamente? Em Bolt, o novo filme da Disney, depois de John Lasseter ter assumido a direcção criativa da Disney/Pixar, o actor é um cão, herói numa série televisiva de sucesso, que julga que, fora do ecrã, pode continuar a ser um super canídeo.
Ainda que não tenha a raça nem a coleira de campeão de um filme da Pixar, a nova aventura vinda dos estúdios de animação Disney – a primeira com John Lasseter como director criativo para além do estúdio que ajudou a fundar – não deixa de ser uma aventura refrescante, com personagens fortes e, mais importante que isso, a primeira a ser construída de raiz a pensar na exibição em 3D Digital. A história, como em quase todas as que saem das mentes destes criativos, é simples mas tem um encanto considerável, oferecendo, graças à tecnologia 3D, cenas de acção servidas ao colo do espectador, com esferovite a saltar-lhe para a cara e um focinho muito grande a surgir do lado de fora do ecrã.
Bolt foi adoptado pela jovem Penny em pequeno e desde então que a sua função, para além da de fiel companheiro, tem sido representar o papel de um cão-herói numa série muito bem sucedida. Mas o que Bolt desconhece é que aquele papel não dura para lá das paredes dos estúdios. Lá fora, os seus super-poderes deixam de existir e a eficácia a salvar a sua dona torna-se ineficaz. É por isso que, quando num episódio, Penny é raptada pelo mau da fita, Bolt julga que tudo é verdade e parte para o mundo real na tentativa de a salvar. Pelo meio encontra uma gata com azedume a jorrar pelos poros e um delicioso porquinho-da-índia, o maior fã da celebridade canina.
Mesmo que, olhando para o resultado final não se adivinhe, a produção de Bolt foi acidentada. A película começou por chamar-se American Dog e tinha no lugar de realizador Chris Sanders (Lilo & Stitch) mas, devido a visões distintas entre o que o realizador queria que tomasse forma e aquilo que John Lasseter queria ver no ecrã, foi a dupla Chris Williams e Byron Howard que acabou por tomar conta do projecto. E o produto que agora chega aos cinemas não deixa o espectador a pensar que algum dia possa ter havido obstáculos ou indecisões.
O conto não tem o poder que todas as longas-metragens da Pixar conseguem alcançar (tendemos a apostar que serão clássicos daqui a 30 ou quarenta anos) mas, sendo uma fita para digestão mais rápida, é convincente. Talvez a principal diferença seja a de que Bolt tenta chegar primeiro a um público mais jovem e, só como consequência, à faixa etária adulta. E isso nem os clássicos da Disney nem os (quase) clássicos da Pixar fazem. Não têm qualquer idade a rotulá-los.