Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

O super-herói de super-visão...

...para o fundo da garrafa. Não é tudo o que gostaríamos que fosse mas, apesar das falhas, Hancock não deixa ficar mal os colegas heróis que se alinharam neste Verão de blockbusters. Aqui ficam as já tradicionais notas soltas. Ainda não passei a vista por Funny Games mas conto redimir-me nos próximos dias. Parece que é bom mas bom.


A vida de Clark Kent não era fácil. O grande poder de Peter Parker obrigou-o a suportar uma grande responsabilidade. Bruce Wayne tinha de esconder o seu lado obscuro e Bruce Banner vivia o complicado drama de se transformar em monstro. Mas havia algo de que não sofria nenhum destes super-heróis. Nenhum deles tinha sucumbido ao alcoolismo. Nesse campo, Hancock talvez seja o herói mais politicamente incorrecto de todos. Salvar populações em apuros? Sim. Mas, só depois de ver o fundo à garrafa.

Logo à cabeça, John Hancock é apresentado sem meios termos. Deitado num banco de rua, junto a uma garrafa de whisky meio-vazia, uma criança solicita que o herói acorra a uma perseguição policial descontrolada. E ele vai, a voar contrariado, enquanto embate contra os sinais na auto-estrada. Um super-herói bêbedo que destrói mais do que devia durante os salvamentos e que é odiado por muitas pessoas incomodadas com as marcas da sua passagem.

Dizem os envolvidos que Hancock só poderia tomar uma forma: a do corpo de Will Smith. Na realidade, nem um dos produtores (Michael Mann) nem realizador (Peter Berg) ponderaram seguir outra escolha ou avançar com a rodagem sem ter Smith a bordo. Na realidade, conseguimos partilhar a visão dos visionários. Até porque, não fosse a sua presença e o filme poderia ser muito menos conseguido.

A realização está a cargo de Berg (O Reino) que volta a trazer em muitas cenas o seu frenesim de câmara ao ombro mas que aqui tem de adaptar a sua visão aos efeitos especiais abundantes (bem conseguidos se bem que, por vezes, aplicados em cenas muito pouco credíveis).

Hancock não envergonha a lista de heróis que os blockbusters de 2008 nos reservou mas apresenta falhas que o impedem de ser um dos melhores. A meio do filme uma reviravolta sobre a qual preferimos não adiantar detalhes vai guiar o filme para um rumo em que novos elementos são introduzidos a uma velocidade demasiado rápida para que percebamos o que os causa. E como em tudo o que é demais...estamos conversados sobre a consequência.

Para além de alguma falta de contexto que ajude o público a entender a história do herói e dos que o rodeiam, também as relações entre personagens sofrem com essa rapidez que faz com que as interacções pareçam pouco naturais (nomeadamente entre as personagens de Will Smith, Charlize Theron e Jason Bateman).

Há ainda alguns momentos em que o espectador poderá sentir que uma maior contenção poderia ter o efeito pretendido (o de provocar um momento cómico) ao invés de resultar em exageros desnecessários.

Apesar dos defeitos, sente-se em Hancock uma originalidade nestas andanças dos super-heróis impossível de rejeitar. À medida que vamos conhecendo os pedaços da personagem, não podemos deixar de achar que esta ideia de criar um salvador destrutivo, amnésico, alcoólico e a precisar de prolongada terapia é das melhores que já ganhou forma numa BD e que, consequentemente, tem um enorme potencial para ser explorada no cinema. Afinal, não estamos num mundo tão descontente que talvez precise de um Messias como John Hancock?

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 11:17
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A rendição aos pés do panda

Tinha passado os olhos pelo trailer e nada me dizia para criar enormes expectativas. Nada indicava que Kung Fu Panda fosse algo de muito original e, mais importante, de muito diferente daquilo que a Dreamworks tinha vindo a fazer nos últimos tempos. Mas deixem-me que corrija os vossos pensamentos se, por algum acaso, eles forem semelhantes aos que me passavam pela cabeça antes de ver Kung Fu Panda. Bela surpresa para figurar nos melhores do ano no campo da animação. Não percam o torneio e partam para o combate.

 

Deixo-vos o artigo saído fresquinho do sítio habitual.


O trailer começa. Um panda desajeitado e alguns lutadores de Kung Fu sob a forma de animais vão dando a cara na promoção ao filme que a Dreamworks escolheu para este Verão. Confiantes, a mostrar que, com eles, vem o habitual humor mas também mais uma história sobre uma espécie de sonho americano virado conto em animação. Se o trailer não impressionou o espectador, será a versão final a fazê-lo mudar de ideias. Porque este Verão não é só Wall.e quem levará a medalha no torneio de artes marciais da animação. Este panda também tem que se lhe diga.

É certo e sabido que ninguém como a Pixar dá vida a objectos inanimados ou criaturas que não costumam ter grande personalidade. É verdade que ninguém fabrica clássicos da animação com a velocidade e a qualidade que aqueles senhores o fazem. Mas também é um facto que a Dreamworks não se resume à saga Shrek (mais do que esgotada com a terceira experiência) nem a histórias cuja sobrevivência se deve a uma muito presente crítica aos objectos da cultura popular em voga pela altura do lançamento dos filmes.

Com a fita que esta semana chega às nossas salas, a principal concorrente dos estúdios de onde saíram Toy Story, Finding Nemo ou o aguardado Wall.e, deixa a certeza de que consegue, facilmente, sair dos seus padrões habituais e oferecer um filme que, certamente, terá reserva marcada, lá para a altura dos Óscares, nas nomeações para melhor filme de animação.

O Panda do Kung Fu prova que as narrativas menos mirabolantes e mais apegadas a um personagem com sentimentos são muito mais eficazes do que o épico de animação que repesca referências aqui e ali, acabando muitas vezes por se perder em chamadas de atenção que roubam o protagonismo aos personagens.

E aí vamos nós, seguindo Po (Jack Black), um panda – como todos os pandas, gordalhufo, pesadão e desajeitado – cujo sonho é ser um poderoso conhecedor das artes do Kung Fu. O grande fã Po tem nos lutadores mais dotados do vale, os seus ídolos de referência na luta de alto nível e, inesperadamente, vê o seu caminho cruzar o deles. Um herói improvável que se intromete no caminho das estrelas por direito na busca que o mestre Shifu (Dustin Hoffman) leva a cabo para encontrar o Guerreiro do Dragão (uma espécie de sábio-mor da luta cujo destino está contemplado numa profecia que o proclama o salvador dos habitantes do vale).

O Panda do Kung Fu é um filme com uma história comovente de amizade, de perseverança, de risadas sinceras; com personagens duradouras – basta falarmos nas distintas personalidades que têm os cinco melhores lutadores do sítio (a menina tigre, o louva-a-Deus, a serpente, o pássaro e o macaco) – e que, como acréscimo, apresenta um estilo de animação bastante diferente daquele a que estamos habituados na Dreamworks. Não há aqui qualquer ambição de tornar os desenhos realistas e é por isso mesmo que eles são tão bons cartoons, no seu quase irrepreensível mundo animado. Para além disso, há vários registos dentro do filme com momentos bem conseguidos de animação a duas dimensões a afastar-se do habitual caminho a que nos habituou a animação mainstream a sair dos Estados Unidos.

É preciso, claro, não esquecer que o «elenco vocal» ajuda a fazer com que a película suba um patamar. Po é feito à medida de Jack Black assim como a senhora Tigre é ajudada pelo desempenho de Angelina Jolie ou o mestre Shifu será recordado pela voz de Dustin Hoffman

Talvez seja «A Força» a estar com este panda que, por esta altura, podemos arriscar-nos a dizer representar já uma das surpresas do ano no campo da animação. O seu humor feito de pormenores atentos e a sua história a apelar ao acarinhamento dos personagens é um sério candidato ao podium. Sem excessivas doçuras nem ternuras.Com pontapés, meditações e muitas exibições de artes marciais. Kung Fu, trabalho ou talento, a verdade é que esta é longa-metragem está no lado certo da luta.

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 10:59
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