24 mil dólares para a caridade, uma mochila às costas e uma viagem até ao mais primitivo que o ser humano tem. Foi o que fez Christopher McCandless. Hoje, chega às salas de cinema um filme sobre os caminhos que percorreu, sem nada, nem um tostão, só a crença de que é possível sobreviver sem os confortos da cidade.
O Lado Selvagem (Into the Wild no original) começa por confessar que o título é fiel ao filme. Um jovem sai de um carro num campo coberto de neve. O condutor diz-lhe só o pode levar até ali. Para lá da barreira, o caminho apresenta-se perigoso mas, para o protagonista, indispensável.
Voltamos atrás, até à altura em que o jovem Christopher McCandless (Emile Hirsch) termina a Universidade. É um aluno de topo e um atleta requisitado. Tem uma família conservadora, esforçada por manter aparências, e uma única relação próxima, com a irmã.
Chris decide deixar tudo para trás, abandonar os privilégios que a sociedade lhe concede e partir numa viagem de busca existencial, uma espécie de desintoxicação alimentar do lixo de que a vida com os outros está cheia. Não quer ter de se relacionar com alguém e acredita que o dinheiro é um bem supérfluo. Ele vê na viagem até uma eventual epifania a obrigatoriedade de se libertar de tudo isso, porque isso cobre o seu espírito de uma névoa maléfica e não o deixa ver com clareza.
O filme do Sean Penn realizador tem sido aclamado pela forma penetrante como aborda as relações humanas e a busca de um sentido para a existência, pela espantosa fotografia e pela astuta realização que admira uma relação a dois: a dele com a natureza. Chega às salas portuguesas com duas nomeações para os Óscares, para melhor montagem e melhor actor secundário no nome de Hal Holbrook, com vitórias nas principais categorias dos prémios dos críticos americanos. 
Mas não serão os prémios a justificar a compra de um bilhete. Será antes a interessante decadência psicológica de um homem remetido para o seu estado mais primitivo, em cenários que já não nos lembramos de ver no cinema porque o cinema não os contempla vezes suficientes.
Entre as paragens que adicionou ao seu roteiro espiritual, o protagonista vai cruzando o caminho de algumas pessoas. Essas são as únicas interacções sociais que tem. Entende-as como verdadeiras mas regressa sempre, para o único local onde a realidade se apresenta palpável. A última paragem seria o Alaska, nas mais duras condições, um teste final para o curso que aceitou fazer. Lá encontrará, à sua maneira, o sentido que tanto procura.
O actor Emile Hirsch recebe aqui a oportunidade para se fazer notar e avança com um bom trabalho. Se por acaso desconhecia a informação, o espectador fica a saber, no decorrer do filme, que a figura da personagem de Hirsch tem uma correspondência verídica. Não que isso importe muito para o realizador mas Christopher McCandless é um homem real que fez na verdade a mesma viagem da fita.
Em O Lado Selvagem estão a mesma obsessão, os mesmos ideais e a mesma busca incessante que no livro de John Krakauer fizeram Christopher McCandless mudar até o nome e transformar-se em Alexander Supertramp.