Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2007

Call Girl: parece que vamos ter um novo filme português mais visto de sempre

Não fiquei fã. Critico muita coisa mas elogio alguns pontos muito refrescantes. No fim de contas é mais ou menos isto que gostava de dizer sobre o filme:

Ela diz que faz tudo. Eles comprovam. Eles dizem que ela dá a volta à cabeça de qualquer um e que deixa marcas profundas na carteira do mais abastado. Ela é uma call girl de luxo pronta para qualquer trabalho. Eles são um político corrupto, um PJ honesto e uma espécie de mafioso à portuguesa ao serviço de uma empresa multinacional. Todos com as voltas trocadas por causa dela. Cuidado com a Maria.

António-Pedro Vasconcelos sempre defendeu a criação de uma «indústria do cinema» em Portugal. Uma que conseguisse levar mais público ao cinema para ver filmes portugueses. Para que o efeito desejado fosse alcançado, diz o realizador, os subsídios para a sétima arte nunca poderiam ser atribuídos da forma actual e muitos dos realizadores nacionais não poderiam pensar da forma experimental de que costumam fazer uso. A visão é pessoal, embora transmissível. Muitos acharão que não é este o caminho a seguir.

Apesar de todos os «ses», a verdade é que em Call Girl António-Pedro aproxima o seu cinema do que se faz por Hollywood. Call Girl pode não agradar a todos mas há uma certeza de que ninguém duvidará: os bilhetes vão ser vendidos a potes e o novo filme português mais visto de sempre poderá estar para nascer. Nem sequer é um risco fazer tal afirmação. A receita do sucesso: Soraia Chaves como protagonista e o sexo, a corrupção e a traição como temas centrais.

A história não é nova. Um «representante» de empreendedores imobiliários quer subornar um político de província para que ele aprove a construção de um empreendimento. Como trunfo para chegar ao «sim» de Meireles (Nicolau Breyner), Mouros (Joaquim de Almeida) vai usar Maria (Soraia Chaves), uma call girl fria e calculista. A femme fatale que deixa qualquer homem a ver a dobrar.

Tal como explica a actriz Soraia Chaves, Maria é também ela «uma actriz» que se molda para agradar a toda e qualquer fantasia, deixando de lado qualquer sentimento que possa teimar em surgir. Mas esta prostituta de luxo não é imune a tudo. O seu ponto fraco é um homem que, ainda por cima e para mal do seu negócio, é um agente da PJ. E nada pode descrever melhor a relação intensa dos dois do que o diálogo mais directo alguma vez usado num filme português. À insinuação do personagem de Ivo Canelas («pensava que as p**** não beijavam na boca»), Maria responde com um raro momento de honestidade («há sempre um c***** que nos obriga a fugir à regra»).

A história de Call Girl já foi contada uma boa centena de vezes. A personagem de Soraia Chaves é novamente muito dependente da sua aparência física. O filme peca por ser longo de mais. O número de palavrões por metro quadrado quase causa saturação.

Conseguimos reunir uma mão cheia de defeitos muito rapidamente mas a verdade é que Call Girl é uma óptima tentativa de levar mais e mais variados espectadores portugueses às salas de cinema com uma história coerente, com o ritmo pedido e com uma boa construção pela mão do realizador.

Para olhar para os pontos negativos é obrigatório pesar o outro lado da balança. E nessa facção está a difícil tarefa que coube a Soraia Chaves. A de interpretar um papel muito físico mas igualmente complexo, cheio de duplas personalidades e finas camadas.

É o próprio António-Pedro Vasconcelos a assegurar que «a Soraia veio livrar-nos de um grande problema que era reunir tantas características numa só pessoa». De louvar também é o personagem de Ivo Canelas, uma espécie de polícia bom/sacana que rouba alguns dos momentos mais cómicos da fita ao mesmo tempo que afirma o seu talento crescente. O actor que teve de passar alguns dias com agentes da judiciária, assegura que era sua intenção «fugir ao estereótipo do agente». Para tentar verificar a sua competência, vai perguntando a todos se foi bem sucedido.

Call Girl é «A» aposta no campeonato português. Entre todos os filmes internacionais estreados este ano não terá hipótese de ser louvado na lista dos melhores (nem se aproximará). Na corrida aos trabalhos nacionais de topo, talvez tenha um lugar cativo. Porque mesmo que o espectador o ache demasiado carregado de clichés, não pode tirar-lhe o mérito de o ter levado até uma sala de cinema para ver um filme falado em português de rua.

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 17:18
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1 comentário:
De happy prince a 30 de Dezembro de 2007 às 03:22
Concordo com vários dos aspectos citados. creio que o filme é demasiado longo, acabando por criar saturação. A linguagem acaba por se tornar cansativa, quando na verdade deveria escandalizar ou divertir. A insistência no calão/palavrão é um exagero que era talvez dispensável.
Chamo ainda à atenção para o número de cigarros que surgem no filme. Longe de mim querer banir o tabaco do cinema, mas creio que há um exagero.
No entanto, tenho de concordar que este filme vai levar muita gente ao cinema, e afinal as grandes indústrias cinematográficas fazem filmes deste género, para as massas.

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