
Nunca fui grande adepta de Denzel Washington. Porque o acho eficaz num determinado registo de onde raramente consegue sair. Também nunca fui particular fã de Russel Crowe. Porque consegue encaixar nos papéis competentemente mas parece não conseguir convencer. Sempre me pareceu ficar racionalmente preso ao boneco que sabe que tem de fazer e, talvez por isso, quase nunca me pareça credível a entrega ao personagem. Mas isto não invalida o facto de achar que são dois consistentes profissionais, competentes e que acabam por ver (justamente) recompensada a sua solidez. Quanto a Ridley Scott, custou-me vê-lo perder-se nos últimos
Kingdom of Heaven e
A Good Year mas a memória que tenho dos tempos de
Alien, Blade Runner ou Gladiador consegue sempre prevalecer.
Serve este prólogo de aquecimento para as ideias com que fiquei de
American Gangster.
Ora acontece que, desta vez, Denzel Washington conseguiu encher-me as medidas. Gosto de personagens cruas, que não avisam
«agora-é-que-te-vou-enfiar-uma-bala-na-testa» e também me agrada que pareçam sempre ter feito aquilo na vida. Ao contrário de algumas opiniões que já ouvi por aí, este Frank Lucas, mafioso negro que revolucionou as ruas do Harlem, nas mãos de Denzel não me parece nada forçado.
American Gangster acompanha a história deste discípulo tornado barão da droga numa cidade onde, de acordo com o retrato, a maior parte das autoridades é corrupta e onde a heroína ainda ameaça ser uma moda sem consequências. É também uma imagem histórica de um país enfraquecido e envergonhado pelo conflito no Vietname que não consegue acordar depois do regresso.
E isto de que vos falei é o que me parece mais aliciante em
American Gangster: a personagem de Denzel Washington e a reconstituição histórica com direito à habitual banda sonora
cool.Depois, há Russe Crowe, num personagem desinteressante em jeito
«polícia-bonzinho-e-sempre-honesto-mas-cheio-de-conflitos-pessoais-analisados-só-porque-sim». Depois há a típica história do dono da máfia que cresceu a pulso e que todos passam a temer (nada de novo). Depois há o fim demasiado esticado que terminaria melhor se não tivesse um incrível necessidade de encerramento conclusivo.
É, sem dúvida, um Ridley Scott em época de reaquecimento mas que ainda não chega para encher as medidas a quem é fã do que de melhor ele já fez.