Quinta-feira, 28 de Junho de 2007

A Rapariga Morta: Para respirar dos filmes de Verão

Aqui ficam algumas considerações sobre este filme que, infelizmente, me parece que não vai ser alvo de muita exposição. É que, meus amigos, isto é bem jeitoso.

"Uma rapariga morta. A última coisa que viu foi o céu e as árvores. Alguns caminhos profundamente alterados pela rapariga. Não pela sua vida, mas pela sua morte. A Rapariga Morta recolhe pontos de inspiração e alia-os aos ideais da realizadora. Se quiserem, é uma espécie de 21 Gramas que encontra Sete Palmos de Terra e incide sobre o retrato feminino. No fim de contas, o que mais fica é o facto de ser uma bela surpresa de Verão sem a futilidade e a rapidez do formato quente tão comum por estas alturas.



Um cadáver é encontrado disposto de forma quase poética por uma mulher de face envelhecida e de semblante de tristeza reconhecível. A câmara acompanha-a como se o cenário se tratasse de um quadro expressionista, passo a passo, até ao total reconhecimento da figura central do filme de Karen Moncrieff. É esta a primeira pessoa a quem a rapariga morta vai tocar: a estranha. Uma mulher alienada pressionada pela sufocante mãe que, depois do encontro, decide libertar-se e seguir em frente.



Para além da estranha, o filme anuncia-nos as mudanças de personagem com designações tão claras como «a irmã», «a esposa», «a mãe» e, claro, o mote para o ciclo, «a rapariga morta». O ecrã insiste em ir a negro e demarcar os blocos para que confusões não existam. Os capítulos são, tal como todo o filme, um statement à volta do conceito de libertação.





A estranha liberta-se da opressão, a irmã do passado, a esposa vê-se livre do marido e a mãe afasta-se da mentira. Todos são de alguma forma influenciados por aquele corpo que, sem o saber, está a dar origem a uma epifania que encontra em comum apenas o motivo mas, no entanto, não se cruza mais, nem tenta inventar razões para ligar todas as narrativas. Todos os retratos trazem-nos à memória a forma como Alejandro Gonzalez Iñarritu estruturou 21 Gramas e os dilemas tantas vezes rodeados em Sete Palmos de Terra. Tudo joga bem, sem exageros nem imitações desinspiradas.

As escolhas devem-se à dona da fita, Karen Moncrieff que, quer pelo seu percurso, quer pelos seus princípios, acaba por criar mais uma das suas peças de reflexão. Moncrieff realizou, ela própria, um episódio da série da HBO e conta já com um caminho «escuro» no cinema (dirigiu Blue Car), cheio de temáticas duras e representações femininas. De certo modo, ela é uma activista pelos direitos das mulheres. Esta é a maneira que encontra para o demonstrar.

Em A rapariga morta os homens são secundários. São as mulheres quem toma o protagonismo e é por elas que os problemas passam e são ou não solucionados. The Dead Girl é uma pausa nos filmes sem pretensão profunda que têm invadido as nossas salas de cinema, como sempre, nesta época de férias. Mal não vem ao mundo com essa avalancha de fitas mas sabe bem parar para saborear um argumento consistente e reflectivo que ainda por cima é acompanhado por uma câmara intrusiva e intimista.


A não perder também são as interpretações deste elenco portentoso que reúne a versátil Toni Collette, a recém descoberta Rose Byrne, a sempre irrepreensível Marcia Gay Harden, nunca esquecendo uma Brittany Murphy (a dita rapariga morta) que consegue surpreender os mais cépticos.

Se conseguirem resistir ao regresso a John McClane ou se vos sentirem com disposição para duas sessões seguidas, não percam a oportunidade de o ver. Provavelmente vai passar despercebido mas é um forte candidato a melhor estreia dos últimos tempos. Aqui, morte só a necessária e no ecrã. O filme, esse, tem vida para guardar."

Veio da casinha verde a que vos começo a habituar, claro.
publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 20:17
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1 comentário:
De Alvy Singer a 1 de Julho de 2007 às 23:58
É bem jeitosinho, sim senhora. Merece ser visto.

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