Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008

A visão sobre a cegueira

É uma estreia incontornável. Depois de tanta polémica, diz-que-disse e críticas, Ensaio Sobre a Cegueira chega às nossas salas de cinema. A verdade é que, nem é preciso discutir a qualidade do filme (isso não está em causa) para dizer que não tenho vontade de o rever. Sim, é bom, mas sim, é muito duro. Deixo-vos as notas que estiveram hoje publicadas no sítio do costume.

 

Muitos diziam ser inadaptável ao cinema, José Saramago negou dezenas de vezes ceder os direitos de adaptação e, mesmo os interessados em pegar no livro e transformá-lo em filme admitiam ter pela frente um desafio quase impossível: criar imagens sobre um mundo em que (quase) todos são cegos. Depois de muitos «nãos» do escritor e de um longo percurso com ajustes e reajustes por parte do realizador do filme, Ensaio Sobre a Cegueira passou finalmente da escrita às imagens em movimento e chega agora às salas de cinema. Para ver como é difícil ter uma visão sobre um mundo em que (quase) ninguém vê.

Numa praça, vista do topo, apinhada de carros em hora de ponta, um condutor causa o caos. Subitamente deixou de ver. Os momentos de abertura de Ensaio Sobre a Cegueira, o filme, mostram precisamente o início da praga e a reacção dos que, ainda não afectados, estão à volta. A epidemia cresce dali e vai tocando em todos os que se vão cruzando com esta doença contagiosa que tira a visão a quem é afectado por ela. Não como se ficasse tudo escuro, mas como se ficasse tudo branco, cheio de luz.

Foi o português José Saramago quem criou a alegoria e ensaiou sobre os efeitos que a catástrofe teria em sociedade. O que aconteceria se, de repente, o mundo cegasse? As ideias do Nobel da Literatura são objectivas: os humanos cairiam numa espécie de regressão até um estado hiper-selvagem em que sentimentos como a compaixão ou a entre-ajuda são deitados à sarjeta para darem lugar a uma crua e básica luta pela sobrevivência, em que as guerras pelo poder usam argumentos mesquinhos e animalescos. Mas, no meio dos cegos, há uma (e apenas uma) mulher que carrega o fardo mais pesado de todos: é a única que não perdeu a visão.

 

José Saramago, homem desconfiado e apegado à sua obra, sempre tinha negado ceder os direitos de adaptação de Ensaio Sobre a Cegueira porque apenas daria um sim a quem preenchesse requisitos muito específicos. O autor queria que o filme pudesse ser feito com meios do tamanho de Hollywood mas não queria que chegasse ao cinema ao jeito americano, caindo nas mãos de um grande estúdio. Foi apenas quando o produtor canadiano, Niv Fichman, acompanhado do argumentista Don McKellar, foi visitar Saramago a Lanzarote que ele concordou em deixá-los partir para a fita porque achou simplesmente que «eles pareciam pessoas sérias e honestas». À equipa, faltava um cineasta de coragem para pegar na tarefa. O contemplado com o convite seria alguém que, anos antes, tentado adaptar a obra: o brasileiro Fernando Meirelles (Cidade de Deus, O Fiel Jardineiro).

 

O resultado do longo processo de negociação e de produção chega agora às salas de cinema, numa versão diferente da que foi estreada em Cannes, e que o realizador achou não ser a que tinha idealizado.

 

Ensaio Sobre a Cegueira é um filme perto da estética a que Fernando Meirelles já nos habituou, crua e realista, visão que seria indispensável num filme cuja premissa reúne, só por si, as mesmas características. Embora Meirelles diga que prefere «sugerir em vez de mostrar» explicitamente a violência no seu estado mais básico, a verdade é que Ensaio Sobre a Cegueira é uma fita tão rija e violenta que, não estando em causa a sua qualidade, dificilmente deixará algum espectador com um sorriso de satisfação no final. Não se coloca em questão o talento de quem dirigiu que, com a difícil tarefa de criar imagens num mundo onde apenas uma pessoa consegue ver, engendrou o possível, fazendo algumas opções estéticas interessantes como o branco queimado presente em todo o filme e algumas coreografias de corpos que resultam no meio do caos. No entanto, a película agradará mais aos que são adeptos do universo que Saramago criou e menos aos que serão apanhados de surpresa com a desumanidade palpável da história.

 

Quanto aos actores que, tal como no livro, interpretam personagens sem nome, designadas pelo papel que desempenham naquele meio social, há a destacar o desempenho de Juliane Moore, a mulher a quem é dada a responsabilidade de ser a única a ver e de Danny Glover, o homem que prefere continuar cego por que foi no meio da cegueira que encontrou um sentido para a vida.

 

Para ver, reflectir, apreciar as opções de Fernando Meirelles e depois, sair da sala, e entrar na porta ao lado para assistir a algo mais leve. Só para que nessa noite, o sono não deixe de ser descansado.

 

De caminho, ficam as entrevistas que fizemos a Fernando Meirelles e a Niv Fichman. Boas conversas.

 

 

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 21:53
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