Quinta-feira, 23 de Outubro de 2008

Esta semana não podia ser outro

W. tinha de ser a primeira estreia desta semana ter um espaço reservado no Elite. Porque marca o regresso de Oliver Stone e porque tem, logo à partida, a tarefa mais difícil que o cinema se atreveu a levar a cabo nos últimos tempos: fazer um retrato de um homem sobre quem toda a gente tem um bitaite para mandar. Aqui fica o artigo que está a esta hora publicado no sítio do costume.

 

Entre a fase em que andava perdido no álcool, os tempos de marialva texano e a era em que se tornou um cristão presidente, George W. Bush nunca deixou de ser uma coisa: um fã de basebol. W. é diminutivo para todas essas partes de um homem cujo retrato é quase impossível de se fazer. Oliver Stone arregaçou as mangas, foi até à boca do lobo e fez um filme biográfico sobre o presidente dos Estados Unidos ainda em exercício. Podia ter batido ainda mais no ceguinho mas optou pelo caminho mais difícil (e talvez o mais justo). Chamou-o de estúpido mas não negou as razões que fizeram dele este W., este George W. Bush.

W. chega aos cinemas numa altura estratégica. A mais perfeita para o lançar, diriam alguns, ou a mais arriscada, afirmam outros, para se estrear um filme sobre um presidente de decisões duvidosas, desprezado pela opinião pública e preso por fios a governar um país em transição política.

Mas Oliver Stone não é um homem de medos, já se sabe, e escolheu o momento que lhe pareceu mais assertivo para trazer a público o seu retrato de W.. A história vai desde os tempos em que era apenas um dos filhos de George Bush, passando pelas incursões alcoólicas e pela dedicação à religião e terminando no lugar mais improvável, por teimosia, motivação ou apenas por orgulho: a Casa Branca.

Com o nome de Oliver Stone associado, os burburinhos sobre o quão destrutiva iria ser a imagem de Bush passada no filme não demoraram a aparecer. O próprio Stone admitiu que iria ser uma biografia crítica. Mas, na semana passada, quando W. estreou nos Estados Unidos, a surpresa foi geral. Um jornal de referência usou mesmo a expressão «spooked» para dizer que o realizador se tinha assustado com a tarefa e tinha amolecido o seu olhar crítico.

Por aqui tendemos a achar que ele não se amedrontou, apenas preferiu ir pela estrada mais tortuosa e mostrar que nem tudo é tão linear sobre a estupidez de George W. Bush quanto a estupidez visível de George W. Bush. O mesmo cineasta responsável por JFK e Nixon tinha optado por mostrar o Bush que se engasga com um amendoim, tem enormes ressacas e toma as mais importantes decisões com base em crenças mal fundamentadas mas, ao mesmo tempo, acompanha a sua luta impossível para agradar ao pai e para estar à altura do irmão exemplar e os seus dramas psicológicos agravados com o álcool e ajudados pela religião.

W. é, como sempre na cinematografia de Stone, um exemplo exímio de como movimentar um câmara, sempre com um olhar intrusivo junto de alguém sobre quem toda a gente tem uma palavra a dizer, aqui a oscilar entre as faces de um tonto sem perfil para estar no seu cargo e de alguém que sempre reprimiu as suas verdadeiras ambições e sempre se escondeu atrás de uma máscara que não corresponde à real. É que, no fim de contas, aquilo de que ele gosta mesmo é de basebol.

A suportar o filme há um elenco irrepreensível liderado por um Josh Brolin totalmente em personagem e com interpretações exemplares à sua volta de James Cromwell (Bush pai), Ellen Burstyn (Barbara Bush), Richard Dreyfuss (Dick Cheney) ou Toby Jones (Karl Rove).

Podemos acusar Oliver Stone de parecer ter tido tanta dificuldade em fazer essa pintura de contrastes, de ter lutado tanto para acertar o tom que, em última instância, o lado de compaixão em relação a Bush não parece ao espectador uma marca de honestidade do realizador. Mas isso não tira a W. o mérito de olhar sobre a História quando ela ainda está a ser feita. E isso, só o sem-medos Oliver Stone podia ter feito.

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 11:06
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