Quinta-feira, 26 de Junho de 2008

Grande mágico, pequena magia

Numa semana em que surpreendentemente só se assinalam duas estreias (será que o Euro tem alguma influência neste agendamento?), não tive ainda oportunidade de pôr os olhos naquela que me parece a mais relevante. Embora os ecos que já me chegaram não me tenham deixado com a vontade que me subia pela pele há uns tempos atrás, não deixo de ter alguma curiosidade em ver Speed Racer.

 

Enquanto não o faço, deixo-vos algumas notas sobre a outra estreia da semana, Death Defying Acts.

 

A personagem era um ilusionista ímpar. Os truques com a camisa-de-forças, o tanque mortífero de água ou as correntes inquebráveis ainda fazem corar David Copperfield e seus parentes. O showman do filme é Harry Houdini, mágico-extraordinaire com o dom de se ver livre de qualquer aprisionamento humanamente impossível de quebrar e figura mítica nas memórias colectivas. Mas o filme de Gillian Armstrong não faz jus ao nome do protagonista. Em vez de magia e transgressões impossíveis, ficamos com uma história linear e algumas personagens impotentes…tal como aconteceria a um imitador de Houdini sem talento para se libertar das correntes.

O actor Tony Curtis já tinha ficado trancado pelo cadeado do maior mágico de sempre no filme de 1953 com George Marshall na realização. Desde a morte do húngaro Harry Houdini (à nascença os pais tinham-no registado como Ehrich Weiss) que as representações dos misticismos da personagem foram chovendo sob a forma de documentários, chegando mesmo a surgir na televisão, em 1998, um telefilme biográfico sobre o homem que nunca revelava os segredos dos seus truques.

Embora, de quando em vez, apareça uma voz dissonante pondo em causa os verdadeiros motivos da sua morte, o episódio oficial registado conta que Houdini morreu vítima dos seus próprios talentos. Costumava dizer bem alto que aguentaria um murro no estômago de qualquer homem sem saber que, um dia, um soco inesperado resultaria na sua morte.

Nesta nova toma no cinema, a biografia de Harry Houdini (Guy Pearce) não é propriamente o assunto em discussão. O filme de Gillian Armstrong, realizadora de uma das adaptações de Mulherzinhas ou de Oscar e Lucinda, quer mostrar o Houdini frágil e perturbado pela sua relação com a falecida mãe e pela permanente desconfiança em relação aos que o rodeiam e não tanto um Houdini biográfico.

Ao público é oferecida uma deambulação no papel de espectador que assiste às maquinarias de um ilusionista perturbado pela morte da mãe e enfeitiçado por uma pseudo-vidente escocesa (Catherine Zeta-Jones) e pela sua filha mais crescida do que a idade faz adivinhar (Saoirse Ronan).

A figura, é claro, dá pano para mangas mas o filme desenrola-se de forma pouco arrebatadora e sem grande aventuras no campo da originalidade. De alguém que terá sido tão complexo e com tanto para desfolhar, sobra, nesta versão da cineasta australiana, um mágico atarantado numa montanha-russa provocada por uma paixoneta de fascínio obssessivo.

Tanto Guy Pearce como Timothy Spall - este último no papel de agente do mágico (se é que o conceito existiria na altura) - como a jovem promessa Saoirse Ronan, que já tínhamos visto roubar o protagonismo a Keira Knightley em Expiação, são competentes nos seus papéis mas não têm espaço para deslumbrar numa fita parca em ideias e com raras saídas criativas. Catherine Zeta-Jones é quem menos convence numa personagem praticamente imutável, com pouco mais interesse no final da película do que nos é dado a conhecer pela altura do genérico inicial.

Se a magia foi o que destruiu o artista, também estes truques usados em Houdini – O Último Grande Mágico são mais prejudiciais à saúde do filme do que libertadores. Talvez falte a este Houdini descortinar um ou outro segredo para se libertar de vez das correntes e dos cadeados.

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 14:55
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