Quinta-feira, 12 de Junho de 2008

Até eu, defensora do pluralismo de opinião...

...fico confusa quando leio (porque já li) algumas opiniões mais do que favoráveis sobre The Happening. Shyamalan terá sempre o mérito de dividir águas. Com este, eu fico do lado contra. Aqui fica um artigo fresquinho de onde vocês já sabem.

 

O Central Park paralisado. Dezenas de pessoas paradas num congelamento bizarro. Algumas frases desorientadas e sem nexo. Uma mulher tira um gancho pontiagudo do cabelo e enterra-o no pescoço, junto à carótida. Estas primeiras imagens de O Acontecimento, tão inspiradas, tão promissoras, rapidamente se esfumam nos vapores venenosos que o filme anuncia. Para trás fica um Shyamalan perdido, desorientado sem sombra do homem que fez O Sexto Sentido ou A Vila. Depois da desorientação que o estranho Acontecimento provoca, as personagens precipitam-se para um suicídio inconsciente. E Shyamalan, também está a pôr a corda no pescoço?

As vozes do apocalipse levantaram-se quando A Senhora da Água chegou aos cinemas em 2006. M. Night Shyamalan, o mesmo realizador que tinha levado o medo, a tensão e os inconfundíveis twists aos píncaros em O Sexto Sentido, O Protegido ou A Vila, tinha dado um passo em falso. Os dois anos que se seguiram foram tempo suficiente para que a expectativa aumentasse. E aumentasse.

Quando o título The Happening surgiu pela primeira vez com a inscrição «escrito, co-produzido e realizado por M. Night Shyamalan» as vozes que se levantaram foram outras. Este Shyamalan de 2008 seria o genuíno (entenda-se como aquele que todos tinham esperança de ainda existir) ou seria o mesmo do seu fraco e fracassado filme mais recente?

O Acontecimento começa com um suposto ataque ao Central Park em Nova Iorque. Um evento inexplicável faz com que os transeuntes fiquem imobilizados, desnorteados e, por vezes, a andar em marcha-atrás. Aos primeiros sinais de alucinação segue-se uma súbita vontade de se suicidarem com o que quer que esteja à mão (um gancho do cabelo, uma pistola de um polícia reutilizada várias vezes ou um pedaço de vidro que sobrou de um acidente). Americanos que se prezem apressam-se a atribuir a causa das mortes em grupo a células terroristas mas depressa vão perceber que este fenómeno é muito menos racional do que um avião a embater numa torre. Aliás, este é o alerta ecológico do realizador, demagógico e moralista.

A guiar-nos a visita pelos recintos de suicídio colectivo estão Elliot Moore (Mark Wahlberg), um professor de Ciências acriançado com problemas matrimoniais, e Alma (Zooey Deschanel), a causa dos conflitos entre casal. De fuga em fuga, de cidade grande para pequena localidade até chegar ao mais inóspito campo verdejante são eles – e também a pequena Jess (Ashlyn Sanchez), filha do amigo Julian (John Leguizamo) – que vão assumir o papel de olhos e ouvidos do espectador.

Esta é uma caminhada por uma catástrofe, anormalmente natural, espalhada por plantas, ventos e ares perigosos, que representa apenas o ponto de partida para o que está por vir.

Mas o que sobra do antigo Shyamalan neste argumento? De facto, está lá o fenómeno raro e sem causa aparente, experienciado por pessoas comuns. Sempre constantes são a tensão e o medo, uma sombra permanente junto de qualquer um dos personagens. Mas este ambiente não parece realista nem tem o poder de deixar suspenso o mais incrédulo dos públicos e aquele acontecimento incompreensível esgota-se quinze minutos depois do início do filme.

A causa para os defeitos é consequência directa da escrita. É somente o que está à vista que o argumento de Shyamalan tem para mostrar: há um fenómeno, o evento propaga-se, o acontecimento mata a rodos e a explicação para ele é divulgada desde início. Se começamos em grande, somos enviados, a meio,para um filme circular e redundante e terminamos sem desenvolvimentos de maior.

Pode perguntar-se o leitor: e quanto às personagens? À excepção de Alma, cuja interpretação de Zooey Deschanel como a mulher infantilmente perturbada por crises menos importantes do que a importância que ela lhes dá, tudo o resto parece tão caricaturado que se aproxima mais do humor e menos do thriller. Mark Wahlberg, por exemplo, cria um menino grande ao jeito série B que nunca consegue acertar no tom (se é que chegou a haver um).

Para além disso, para quem vai à espera do tradicional twist, o que podemos dizer é que vá preparado para algo muito diferente (e muito desapontante).

Não que o twist seja uma característica essencial na arte do cineasta mas, perante um Shyamalan a fazer tudo tão à pressa e a parecer-se mais com um fã wannabe do que com ele próprio, talvez pudesse esse mecanismo salvar O Acontecimento que, assim, parece estar condenado a não acontecer.

A pergunta sem resposta precisa de ficar escrita: perdeu-se de vez aquele que um dia foi o mestre dos fenómenos e das reviravoltas surpreendentes?

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 16:27
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3 comentários:
De Guilherme Fonseca a 13 de Junho de 2008 às 12:28
Excelente crítica. Concordo com cada silabazinha.

Basicamente escreveste o que eu quis escrever, mas bem escrito. =) Até se nota largamente nas palavras o mesmo tom "desapontado" que eu senti quando apareceram os créditos.

Vou continuar a passar por cá.
bjinh,
gui
(ramboiablog.blogspot.com)

De Ricardo Fernandes a 17 de Junho de 2008 às 12:58
Concordo com a maioria do que escreveste... mas o filme n é um desperdicio total... como sempre acho o homem um incompreendido e para além da plot ter sido revelada cedo demais, o unico senão é mesmo o Mark Walbergh que parece... nem sei o quê... bj
De cintia de sá a 23 de Junho de 2008 às 02:08
Se Shyamalan se perdeu pra sempre eu não sei, espero que não, mas certamente não esperarei sentada numa poltrona de cinema. O próximo filme dele assistirei em casa!

Saudações brasileiras!

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