Quinta-feira, 22 de Maio de 2008

Sobre este Indy nos anos 50

É mais ou menos isto que aí vem a seguir que penso sobre Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull. Queria gostar muito mais mas só gosto assim assim. O artigo chegou mesmo agora do sítio habitual.

 

Passaram dezanove anos desde que Indiana Jones e a Grande Cruzada deu o ar de sua graça nas salas de cinema e, com o tempo, as gerações renovaram-se, os filmes passaram do analógico para o digital e os heróis de acção deixaram de ter arranhões para contar a história. Este Indiana Jones 2008 (1957 na data em que o filme decorre) também já tem rugas, também já é digital, também já não representa para os netos aquilo que foi para os avós. Apesar dos senãos, haverá realmente alguém que consiga odiar Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal?

O ícone é de tal forma insubstituível que não há quem viva neste mundo e não consiga reconhecer os símbolos que o representam. Em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, o símbolo surge ainda antes da personagem regressar. Podia ter sido o chicote mas foi o chapéu do professor Henry Jones Jr. (Harrison Ford) que, à saída de um jipe, rolou pelo chão fazendo com que, apenas através de uma marca registada, não houvesse quem ficasse sem perceber a figura que o seguiria. Uma silhueta em sombra, uma frase feita, a sempre mal ajeitada camisa com restos de pó como que a dizer «andei nas minhas aventuras de arqueólogo» e imediatamente percebemos quem está perante nós.

 

Ele voltou e, apesar dos seus 65 anos, continua em plena forma. Indiana Jones está de regresso e não há quem dispense revê-lo. Haverá mesmo alguém de neto a avô, passando por filho e sobrinho que não esteja numa fila de bilheteira a esta hora?

 

É Indiana Jones. É a música de John Williams que põe todos a trautear. É o medo de cobras, a pistola certeira e o chicote bem manuseado. São as perseguições infindáveis por templos, ruínas e selvas traiçoeiras. É a família Spielberg, Lucas e Ford em ritmo de cruzeiro mais uma vez. Ou pelo menos, é disto que o espectador vai à espera.

 

Em 1981 (Os salteadores da arca perdida) Indy procurava por uma arca. Em 1984 (Indiana Jones e o templo perdido) andava em busca de pedras sagradas. Em 1989 (Indiana Jones e a Grande Cruzada) corria atrás do Santo Graal. Agora Indiana Jones parece querer perseguir vários objectos ou destroçadas memórias que recusa deixar cair no esquecimento. Ora são as caveiras de cristal que, claro, obviamente, sem dúvida, teriam de trazer um poder inigualável que, a cair em mãos erradas, poderia destruir o mundo como o conhecemos (ou como eles o conhecem)? Ora são memórias passadas com a aventureira incorrigível Marion Ravenwood (Karen Allen) que, mesmo com o passar dos anos, não perdeu a desfaçatez? Ora são os tempos em que o chicote, o chapéu e a pistola nunca estavam arrecadados e em que o laço no fato universitário pouco era usado?

 

Talvez seja uma procura múltipla esta que o professor Jones faz em 1957, anos já distantes dos nazis, agora com comunistas andróginos à perna – em particular a muito (e bem) teatral Irina Spalko embonecada pela sempre irrepreensível Cate Blanchett.

 

Tal como nos anteriores filmes, também aqui Spielberg traz para a mesa as referências ao contexto social da época em que ele decorre. A saber, há Marlon Brandos por todo o lado (sendo Mutt Williams, a personagem de Shia LaBeouf, o expoente máximo da referência); há saias redondas, rabos de cavalo e sapatos rasos nas meninas; respira-se a Guerra Fria e a ameaça atómica e há até ficção científica à séria pelo meio da história. Se enganos houvesse quanto à data em que o filme se passa, eles esfumar-se-iam logo no início, quando a típica montanha da Paramount dá lugar a um montinho de areia de onde sai um cão da pradaria ao som de Hound Dog de Elvis Presley.

Mais não dizemos para não arruinar surpresas.

 

Tínhamos tudo para gostar deste renovado Indiana Jones. Aliás, gostamos dele. Como não gostar de algo que se esperou tanto tempo para ver e que tanto marcou alguma parte das vidas de cada um?

 

Mas não o adoramos tanto quanto esperaríamos porque a este Indiana Jones falta profundidade nas outrora muito bem explicadas personagens. As descobertas e conclusões que se tiram em relação aos 20 anos passados entre este e o último filme são sacadas tão rapidamente que parecem demasiado caricaturais. Tudo para seguir em frente com as ininterruptas sequências de acção que, convenhamos, fazem parte do estilo, mas só funcionariam em pleno com a sustentação da história de Indy.

 

Não queremos adiantar de mais sob pena de tornar este artigo num desenrolar de spoilers mas podemos acrescentar que há um desejo tão grande de introduzir mais e novos elementos na narrativa a produzir um excesso que acaba por desembocar numa miscelânea de fios narrativos sem um central que seja suficientemente forte. Este Spielberg não parece ter oferecido assim tanto a alma ao filme como tinha vindo a apregoar desde há muito. Talvez tenha sido a vontade de superar as anteriores três fitas que fez com que, afinal, esta seja a mais fraca de todas.

 

Apesar disso, sejamos justos, Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal é entretenimento de qualidade com algumas cenas de deliciosas (como aquela em que Mutt Williams fazendo troça da velhice de Indy o faz montar uma Harley Davidson e correr pela cidade enquanto penteia o cabelo coberto de gel ou como aquela em que, à falta de uma corda para sair de areias movediças, o professor tem de se segurar a um animal que adora).

 

O problema deste Indiana Jones é ter o peso de três filmes insuperáveis, os anos de expectativa acumulados e muitas gerações com os olhos postos no ecrã. É missão quase impossível corresponder a estes padrões. Queremos muito idolatrá-lo mas não podemos deixar de querer mais.

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 09:44
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