Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

Até amanhã, Irene

Tal como já vos tinha dito, Goodnight Irene é um filme a não perder. Português. Não de gema mas o suficiente para ser elogiado como tal. Deixo-vos algumas notas soltas saídas quentinhas do sítio do costume.


O triângulo amoroso é só uma desculpa para transformar a história em buddy movie. Ou será road movie? Ou mesmo drama? Ou comédia? Que o título não insurja o engano. Goodnight Irene é tudo isto e é português. Dois homens em corrida por uma cidade simbólica em busca da mulher que lhes é escape para a solidão. A salvação está nela mesmo que, inesperadamente, precisem de dizer «boa noite, Irene».

Paolo Marinou-Blanco é realizador estreante. Tem pai português e mãe grega mas foi nascer em Nova Iorque e passou a sua infância por vários países da Europa. Estudou em Nova Iorque e chegou a cruzar-se durante um estágio com Spike Lee. No entanto, foi em Portugal que veio rodar a sua película de estreia.

Faz sentido, por isso, que a sua primeira longa-metragem não adopte um título português. Ficamos sem certezas sobre qual a pronúncia correcta para o nome de Irene mas, seja à portuguesa ou à inglesa (americana, no caso em questão), o filme de Blanco tem muito de quem está longe de Lisboa mas a sente como dele. Escreveu o argumento pensando na cidade onde o iria inserir e, como resultado, Goodnight Irene parece já não existir para além daquele sítio. Não existe decerto para além daquelas personagens, cernes do sentido do filme e motores para todo o seu significado.

As figuras centrais são Alex (Robert Pugh), um actor inglês em fim de carreira que se fecha numa cabina de gravação para fazer narrações para vídeos turísticos, e se fecha para tudo o resto. Apenas o copo na mão e o azedume na voz. Bruno (Nuno Lopes) é um fabricante de chaves ainda crente na bondade do mundo que entra sorrateiramente pelas casa do bairro e vai roubando imagens dos vizinhos para as reunir numa espécie de banco de dados de existências. A fechar o triângulo está a mulher que dá o nome ao filme. Irene (Rita Loureiro) é a pintora errante que vai surgir de rompante na vida dos dois e retirá-los do seu casulo de isolamento. É uma figura sempre presente, mesmo depois de desaparecer sem deixar rasto e levar os dois homens a unir-se para a encontrar. É aí que Goodnight Irene se transforma em algo completamente diferente.

Ora é buddy movie porque os dois personagens assim o tornam, ora é road movie visto que eles de facto partem para a estrada com a convicção de que vão recuperar os momentos de tempo perdido na busca pelo ser que os voltou a insuflar de vontade. Argumento aparentemente leve que, numa segunda camada, nos incita a perceber que saídas há para uma solidão latente e que razões há para continuar a seguir em frente. Neste departamento estamos conversados.

Se a isto acrescentarmos uma preponderada fotografia de Miguel Sales Lopes, a dar uma nova luz a Lisboa e a encher de amarelos as noites quentes dos dois amigos, e uma realização inspirada de Marinou-Blanco, a provar que trouxe das suas experiências americanas a marca de alguma inovação, Goodnight Irene pode bem ser o filme português que muitos gostariam de ver há muito tempo.

Não se vira para o exemplo de Hollywood e é de autor sem ser demasiado fechado. Um desejo de boas noites que se despede sem tristezas nem dramatismos de uma história que poderia cair nesse poço sem fundo. Não o faz. Este «boa noite» afinal é apenas um «até amanhã».

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 12:42
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1 comentário:
De sigacafe a 15 de Maio de 2008 às 16:37
Deve ser um filme mesmo muito interessante.
Gosto muito do trabalho do Nuno Lopes, por isso estou curioso para ver este filme!
Como amante de cinema que pareces ser, gostaria de te propor um desafio, que faças a lista dos 10 filmes da tua vida, é muito complicado!!
Já agora, gostaria de saber a tua opinião sobre a lista que eu escolhi
http://sigacafe.blogs.sapo.pt/32310.html#comentarios

Fica bem

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