Sábado, 3 de Maio de 2008

Michael Jackson e o seu macaquinho de peluche

Vale a pena passar os olhos por este Mister Lonely de Harmony Korine. Ele sabe bem como colocar as imagens a servir os propósitos da sua imaginação e consegue, no quadro com o potencial de maior estranheza, introduzir um tom terra-a-terra que nos faz acreditar nas suas personagens. A não perder se aparecer por aí em DVD ou nas salas de cinema. Ontem foi no Indie.

Em Paris, Michael Jackson encontra-se fortuitamente com Marylin Monroe. Os dois seguem para a Escócia onde partilharão casa com Charlie Chaplin, James Dean ou Shirley Temple, entre outros. Não são os reais. São os sósias que Harmony Korine quis ter em Mister Lonely. Um drama que podia soar a comédia. Começa a dizer Beat it com Paris como fundo e termina convicto de que You are not alone na mesma cidade.

Mais uma sessão cheia no Indie Lisboa. A procura por bilhetes para assistir a Mister Lonely foi tal que a sala 3 do São Jorge foi trocada pela superior, onde cabem 800 espectadores.

Luzes apagadas e, no ecrã, uma mini-mota ocupada por um sósia de Michael Jackson (Diego Luna) com um macaquinho de peluche preso com uma corda à traseira do veículo marcam o início. Ao som de Mister Lonely de Bobby Vinton entramos no estranho mundo de Harmony Korine. Tão alucinado que podia ser ridículo. Tão bem pensado que nunca resvala para a ridicularição.

O conto de fadas que podia parecer uma comédia mas é muito mais um drama de personagens bizarras, conta a história de um sósia de Michael Jackson em busca da sorte por Paris. Um dia, durante um espectáculo num lar de idosos, encontra uma alma gémea da mesma classe profissional. Ela é Marylin Monroe (Samantha Morton), loura platinada de voz metida a pinças, casada com, veja-se bem, um sósia de Charlie Chaplin e com uma filha cuja aspiração é ser como Shirley Temple.

Eles não pertencem ali. Estão fora de um baralho que não os aceita mas querem pertencer a algum sítio que os acolha. Partem então para a Escócia, onde Marylin promete a Michael a pertença numa espécie de colónia para sósias que não conseguem ser mais do que a cópia de pessoas distantes.

O realizador Harmony Korine filma este solitário Jackson como se ele fosse a personagem com mais camadas para despir que o cinema já conheceu. As aparências enganam porque, de facto, a profundidade dos protagonistas é muito mais gigantesca do que as lantejoulas, o chapéu ou o casaco militar podem fazer parecer.

A loucura do cineasta é simultaneamente o seu trunfo. Não fosse ele tão imaginativo e a sequência do freak-show em que todos participam podia ter o efeito contrário ao pretendido. Comprovamos que não aconteceu. Ao longo da exibição, as gargalhadas causadas pela estranheza foram sendo substituídas por um profundo silêncio próprio de quem já se apegou aos personagens e aos planos introspectivos que Korine nos oferece a cada passo. Até a saia de Marylin a esvoaçar em câmara lenta parece ter muito mais para contar.

Depois de feito o devido aviso - Mister Lonely tem muito pouco de cómico - revela-se a real intenção do filme. Somos todos estranhos em terra que não aceita diferenças mas há um lugar reservado mesmo para aqueles que teimam em não se encontrar.

A diferença na fita de Korine é que a lição a tirar chega por meio dos títulos que Michael Jackson deu às suas músicas. Este Michael Jackson de Mister Lonely passa por Thriller, revolta-se em Beat it mas acaba com a certeza de que You are not alone (não está sozinho).

Esta noite, na sessão de encerramento do Indie Lisboa estará em destaque o filme de Ken Loach It’s a free world e serão anunciados todos os vencedores do festival. Amanhã, é dia de reposição dos premiados nas salas do certame.

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 11:19
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