Segunda-feira, 28 de Abril de 2008

Para os que preferiram o sol...

...trago-vos alguns acontecimentos no fresquinho do Indie. Não se esqueçam que dura até ao próximo Domingo.

O sol do fim-de-semana não foi amigo do Indie. Ainda que possa ter roubado alguns espectadores às quatro salas onde o festival decorre, a partir do final da tarde as sessões não davam sinais de que a praia estava boa. Picámos a competição, o observatório e um dos heróis independentes num fim-de-semana que começou na quinta e só terminou ontem com o filme que poderá bem vir a vencer o prémio do público.

Nem um problema menor na projecção de Happy-Go-Lucky (Mike Leigh) que causou uma interrupção abrupta a meio da sessão, impediu a sala cheia (a rebentar pelas costuras) do S. Jorge de continuar em altas gargalhadas. Todos conquistados pelo arraial de cores vivas que Leigh coloca no seu filme e pela história de Poppy (Sally Hawkins), uma happy-go-lucky (alguém que resolve passar pela vida sem dar importância aos problemas) com o condão de passar pelos momentos mais deliciosamente absurdos numa aula de condução, numa aula de flamenco (extraordinária caricatura da professora) ou numa das suas próprias aulas já que Poppy é professora primária. Uma espécie de O Sexo e a Cidade à inglesa com algum significado para extrair. Este foi o filme que, ontem à noite, fechou o primeiro fim-de-semana do Indie. A julgar pelos comentários à saída e pela explosão de gargalhadas, Happy-Go-Lucky é um forte candidato a levar para casa o prémio do público.

Mas o fim-de-semana tinha começado há uns bons dias atrás. Depois das honras de Wong Kar Wai, o primeiro dia de engrenagem no Indie era dia feriado. Partimos para dois filmes na lista competição internacional. O primeiro, The Flower Bridge, da mesma Roménia a ser homenageada na secção heróis independentes, era um documentário sobre Costica e os seus filhos, uma família pobre habitante de uma aldeia com pouco para oferecer. O mesmo com o filme. Pouco progressão, muita circularidade na narrativa. A dada altura, percebemos que estamos a ver uma espécie de diário de pai e crianças, sempre nas mesmas tarefas quotidianas que fazem sobreviver a sua quinta. O retrato social que talvez Thomas Ciulei quisesse mostrar perde-se para um fascínio com a rotina. De retratos sociais já falamos mais à frente.

De seguida, com o cinema Londres composto pelo aproximar da noite, o filme era Argentino e chamava-se El Asaltante. Espectadores atirados para junto de um ladrão bem educado, cavalheiro o suficiente para sorrir e falar calmamente ao mesmo tempo que aponta uma arma. Acompanhamos os desaires de um cleptomaníaco na primeira pessoa sempre de câmara ao ombro, sempre atrás do ombro do vigário. El Asaltante é uma boa ideia concretizada de uma forma pouco inspirada. Falta-lhe uma força maior em todo o filme e não apenas nas cenas mais quentes: as dos assaltos.

Já com o fim-de-semana a meio e depois de uma noite em que o Lux tinha recebido a festa oficial do Indie, a primeira sessão de Sábado no São Jorge mostrou que o cansaço pesava (ou que a praia tinha vencido o Indie). Pouca afluência para ver Johnnie To (e Kei Fung), o herói independente que ontem chegou a Portugal, e o seu PTU.

Ainda assim, nas cadeiras figuravam alguns espectadores atentos para um policial de um dos mestres do cinema de Hong Kong. Usando um exemplo recente, uma Tropa de Elite em versão asiática, com o sempre presente toque de humor (como no momento em que um gangster fica com uma faca cravada nas costas mas sai a correr de um restaurante) e uma violência bem ao género de To.

Mesmo com as altas temperaturas, foi no Domingo que os lisboetas parecem ter ficado rendidos ao Indie. Já se sabia que Happy-Go-Lucky ia esgotar, talvez porque tivesse a assinatura de um cineasta mais reconhecível, mas, por onde andámos à tarde, a mancha humana também não representava uma desilusão.

Ir ao cinema no teatro. Foi o que fizemos no Maria Matos. Vimos um notável documentário de Antoine Cattin e Pavel Kostomarov (The Mother) sobre uma mãe russa, gasta e refém das dificuldades do país, em luta para não deixar ficar mal os seus nove filhos. Sem esquecer os problemas do país, de um poço de dramas, os realizadores conseguem extrair algum positivismo e deixar o espectador com vontade de saber onde e como está hoje a família em questão. Um dos autores, presente na sala, contou que ainda a visitam ocasionalmente e lhe levam comida mas que, aquela mãe, nem se importa com a imagem que o filme passa. Este sim, um retrato social bem construído, fruto do trabalho de três anos.

De volta à Avenida da Liberdade para o penúltimo filme do dia, passámos por Wonderful Town (Aditya Assarat), uma imagem da Phuket pós-tsunami, ainda em ruínas e com uma desconfiança perante recém-chegados que só um enorme trauma podia deixar. Uma história muito bem filmada, quase poéticamente demorada, a deixar um rasto de reflexão sobre os males de uma comunidade em pedaços.

Fechámos na maior sala do Indie o fim-de-semana de maratona mas o festival continua até ao próximo dia 4 e promete continuar a fazer parar a cidade. Hoje Johnnie To e Wai-Ka Fai estarão num encontro aberto de entrada gratuita no Maxime e amanhã o mesmo acontecerá com outro dos heróis independentes deste ano, José Luis Guerín. No próximo Sábado serão anunciados os vencedores e a sessão de encerramento ficará a cargo de It’s a free world de Ken Loach.

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 13:52
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1 comentário:
De Loungeart a 29 de Abril de 2008 às 09:06
Temos mesmo muita inveja por teres tempo para ir a este belo festival. Lol. Um abraço.

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