Quinta-feira, 24 de Abril de 2008

A demência de Olivier Assayas

A verdade é que a semana de estreias não traz grande entusiasmo. Para quem tem em casa o DVD supremo de Blade Runner não será grande novidade a estreia da sua "versão definitiva", ainda que seja bem bonito levá-la até ao grande écrã. Para além disso, não estou em condições de falar sobre Things we lost in fire visto que estes olhos ainda não o conseguiram ver (e até não estão por aí além de entusiasmados com a ideia). O mesmo com os restantes.
Posso sim, deixar-vos opinião sobre Boarding Gate, o filme de série B obssessiva trazido por Olivier Assayas. Não será imperdível mas pode ser uma simpática mas perversa sugestão para a noite de sexta-feira. Ficam as impressões saídas mesmo agora do sítio do costume.

E se a vontade de contar uma história doentia fosse tão grande que a contenção não chegasse para a parar? E se o desejo de despir Asia Argento e ver Michael Madsen à sua mercê não pudesse ser reprimido? Foi o que aconteceu com o realizador Olivier Assayas e com o seu Boarding Gate. E as suas obsessões doentias passaram a ser parcialmente compreensíveis.

«Fazer um filme de série B em inglês». Era esta a meta a que se propunha Olivier Assayas, o estudante de pintura e literatura virado crítico de cinema para os Cahiers du Cinéma (entre 1980 e 1985) que vai dividindo a função de escriba com a de realizador.

Para o efeito, procurou um espaço na ocupada agenda de Michael Madsen (Cães Danados, Thelma e Louise, Kill Bill) e convidou a Asia, a filha do mestre do terror italiano, Dario Argento. Tudo premeditado. Tudo muito bem (ou muito mal, como preferirem) intencionado.

Da vontade de ter os dois protagonistas envolvidos com mais um num triângulo amoroso e de juntar à história assassinatos inesperados numa teia de corrupção e sexo sadomasoquista, saiu Boarding Gate, uma demência que Assayas quis pôr em prática e que se afasta das histórias de violência e sexo por isso mesmo. Por ser doentia. É essa mesma visão alucinada de filme fora do circuito normal que confere a Boarding Gate a sua peculiaridade de série B com uma ponta de diversão cáustica.

Para vestir (ou despir) estas ideias construiu-se a seguinte narrativa: Sandra (Asia Argento) é uma italiana residente em Londres, ex-amante de um magnata financeiro (Michael Madsen) – pouco fiável e muito perverso, diga-se – que, em segredo, guarda um segundo amor: Lester (Carl Ng). Este segundo propõe-lhe um negócio que envolve uma arma e um tiro na cabeça. Em troca de carinho, segurança e um novo negócio do outro lado do mundo (em Hong Kong) ela, mulher, não muito ingénua mas crente, deixa-se levar pelas circunstâncias e acaba embrulhada nelas.

Sem querer e para sair viva do episódio, é obrigada a pegar em armas mais do que gostaria e a protagonizar mais cenas sadomaso do que o previsto. Não esquecer, na lista de pormenores, a presença de Kim Gordon dos Sonic Youth como uma quase cabecilha do crime na cidade.

O sangue, as mortes, o sexo e…as mortes outra vez…deixam em Boarding Gate um simpático espírito de homenagem a um cinema que não é feito para agradar a todos mas que, para o seu autor, está perfeito. É visível o prazer com que Assayas filma as sequências de dominação com Argento e Madsen ou as perseguições pelas ruas de Hong Kong, sempre deixando uma imagem despercebida, às vezes desfocada. Cada um que tire as suas conclusões, quase que o podíamos ouvir dizer.

Talvez Boarding Gate se deixe fascinar de mais pela ambição do ponto de partida - a de ser um filme série B em inglês - e se torne exaustivo ao tentar que todas as cenas contenham o rótulo mas, o espectador, ficará com o gostinho de ver um produto feito a partir de um desejo indomável. Não pelos possíveis lucros, nem para ser elogiado. Para ser doentio. Com isso não vem mal ao mundo porque a doença acaba por ser mais benigna do que maligna.

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 15:40
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1 comentário:
De Loungeart a 29 de Abril de 2008 às 09:12
Asa Argento é aquela actriz que quanto mais choque for o filme melhor são os seus desempenhos. Ainda não vi o filme mas estou curioso para ver o que esta bela Italiana fez ao Michael Madsen . Um abraço.

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