Quinta-feira, 17 de Abril de 2008

Romero e os seus zombies da geração Youtube

Porque esta semana também regressa o mestre dos batidos de sangue e dos mortos de pé, o Elite não poderia deixar passar o evento em branco. Deixo-vos algumas ideias sobre Diary of the dead, o novo de George A. Romero.

Os mortos de Romero estão de novo de pé para mais um filme cujo título termina em dead. A saga zombie do padrinho do terror contemporâneo voltou à estaca zero. Não é uma sequela. Não é um remake. Conta tudo de novo mas acrescenta quarenta anos à história inicial. Os heróis: uma geração voyeur com fé na máxima «só aconteceu se foi filmado».

O filme está dentro do filme. E dentro desse filme ainda há mais outro. Tudo registado, filmado, guardado para os que sobreviverem (ou não) ao ataque mortal de zombies sedentos de carne humana. De volta às histórias de mortos-vivos de George A. Romero, o cineasta defensor dos zombies, vampiros e criaturas sobrenaturais da mesma árvore genealógica. Desta vez, numa adaptação ao progresso tecnológico que a internet, a constante vigilância e a crescente necessidade de imagens para retratar o mundo trouxeram.

A fita que hoje estreia nas nossas salas é a quinta incursão do realizador num mundo dominado por gentes mortas. Começou a sua viagem pelo gore de dentadas e tripas de fora com Night of the Living Dead (1968) e a este seguiram-se Dawn of the dead (1979), Day of the dead (1985) e, o ainda fresco na memória, Land of the dead (2005).

Diary of the dead não é excepção e termina o título com a mesma marca registada mas afasta-se dos seus antecessores por não ser uma continuação do primeiro de todos. Em todos os anteriores Romero seguia por cenários diferentes dentro de um mesmo mundo. Com Diário (como não poderia deixar de ser) dos mortos, recomeça a saga, volta ao ponto de partida, onde os vivos descobriram que estavam a morrer e a voltar à vida e pega daí para, outra vez, gastar sangue a rodos, oferecer momentos cómicos de alto gabarito (e isso nunca falha em Romero) e criticar ininterruptamente o sistema americano.

É sabido que o cineasta não é só mestre do terror, é sábio do terror com mensagem político-social e Diário dos mortos não é excepção na sua cinematografia. A crítica é aos tempos das tecnologias emergentes, da sede por observar carnificinas e da dormência perante violência extrema mostrada diariamente, em todo o lado e a toda a hora. Porque, como dizem os protagonistas, «só aconteceu se tiver ficado registado em vídeo».

Romero fica agora de parte. Há história para contar. Várias, aliás. Os personagens são estudantes de cinema em produção de um filme de terror mas, de repente, apercebem-se de que a sua realidade está a ser atacada por um filme de terror bem ao alcance de todos e decidem virar a objectiva para os zombies que dispensam caracterização em deambulação pelas ruas da cidade.

Ao público é dito que vai ver The Death of Death, um filme de Jason Creed, o aluno documentarista obcecado pela profissão. Na realidade vão ver um filme de George A. Romero que contém um filme de Jason Creed que, por sua vez, comporta filmes de toda a comunidade virtual pelos cantos da Terra.

Sempre de câmara ao ombro, estilo que parece estar em voga depois do um pouco mais distante Projecto de Blair Witch e dos recentes Cloverfield e REC, e com o mesmo uso que Brian De Palma dá aos vídeos de vigilância, aos telemóveis e aos sites de partilha de vídeos em Redacted.

Os zombies de calibre estão lá e são-nos dados de bandeja alguns momentos cómicos de luxo. A não perder a visita à quinta de um Amish surdo-mudo que comunica com uma ardósia e mata zombies com explosivos e saídas como «eu disse-te que os mortos andavam devagar!». Apesar disso, a preocupação de Romero com a sátira social ou o formato altamente adaptado às tecnologias parece ter deixado esquecido o ritmo frenético e o clima de tensão que gostamos de ver num filme de terror.

O mestre diz que este filme lhe vem «do coração. Não é uma sequela nem um remake. É um começo inteiramente novo para os mortos». Embora já esteja anunciada uma sequela para Diário dos mortos, talvez seja hora de Romero dar descanso aos mortos e aventurar-se noutro espectro do sobrenatural.

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 16:05
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1 comentário:
De Ricardo Fernandes a 18 de Abril de 2008 às 11:21
Este têm de ser visto. Romero é Romero...

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