Domingo, 13 de Abril de 2008

Hoje vale a pena fazer uma pausa no cinema

Só mesmo para falar do concerto de ontem. No entanto, não posso deixar de dizer que um dia ainda vamos ouvir falar de David Fonseca, o cineasta. Ou pelo menos, ele tem potencial para isso. Mais logo volto ao meu terreno habitual da sétima arte.

Deixo-vos o artigo que deve estar agora no sítio do costume e convido-vos a converterem-se à religião David e Rita. Como diz Nuno Markl nas promos aos seus programas na Antena 3, "quem ouvir é sexy".

Ele diz nunca saber como começar e estar sempre na dúvida para onde vai mas, ontem, num Coliseu dos Recreios hipnotizado, não houve incertezas quando David Fonseca encenou a sua existência e cantou todos os “eus” que já teve. Foram duas horas e meia para despir o David revivalista, o David criativo, o David contador de histórias e, surpresa geral, o David agente secreto.

A cortina no palco não sobe com o início. Desce. À vista, um webisódio de David Fonseca em tamanho gigante explica que aquilo de que ele gosta é da viagem. Diz não ter pressa para chegar e não saber muito bem por onde começar. E depois, veste-se de Mariachi. O Coliseu pergunta-se – as surpresas foram tantas que, ao longo da noite, a pergunta foi constante – «o que vai entrar em palco agora?». O Boa Noite Lisboa no écrã, abre as luzes para uma banda de Mariachis.

A seguir, o homem da noite, desdobrado, repartido, nos olhos de todos e a dar tudo o que tem, canta 4th Chance. Tinha começado a mega-produção de David Fonseca, com vídeos preparados, bailarinos escondidos, histórias prontas para contar, covers alucinadas e uma viagem sem pressas (tal como ele gosta) pelo mundo de alguém que já foi muitas pessoas e que ontem se assumia em pleno, completo, apenas uma.

Para além, de Superstars, assobiado em coro pelo público e depois de contado o processo de fabrico de uma música que «começa por ser simples, depois fica complexa e depois volta a ser ideal para o carteiro cantar», a plateia teve direito a quase todas as canções do álbum mais recente, Dreams in Colour mas também a muitas surpresas bem encenadas desde há semanas.

Ouviram-se Kiss me, oh kiss me, a «canção da senhora da limpeza», ou This raging light que, a meio, deixa de ter apenas David Fonseca no palco para ser acompanhada por bailarinos de vestuário 90’s e movimentos bem apropriados para um bar de drag queens.

Em conjunto com um público que tinha feito o trabalho de casa, o actor/realizador/músico cantou Our hearts will beat as one ou, costas contra costas com Rita Redshoes, Hold Still, a música que David diz ser uma das suas preferida «para tocar ao vivo».

A razão: a menina dos sapatinhos vermelhos que o acompanha ao piano e que tinha feito a primeira parte do concerto num registo a que David chamou de «encantamento generalizado». O público mostrou que, embora ainda não cantarolasse para além dos singles desta muito portuguesa Dorothy, não esteve apenas à espera de David e que esta era dourada de Rita vai durar. Mas Rita Redshoes não quis ofuscar o homem da noite.

De volta a David, «Lá de longe» veio Rocket Man, e todos quiseram ir até ao espaço.

Mas claro que o artista sempre habituou os seus seguidores a cantar o que, ao longo dos tempos, lhe ficaram na memória e, ali, na noite que era a sua, não podiam faltar as habituais covers. E foram muitas. Algumas foram apenas um aperitivo para uma das suas músicas entrar a seguir. Recorde-se a entrada que Space Oddity de David Bowie fez para I see the world through you ou a prólogo que Still loving you dos Scorpions foi para Kiss me, oh kiss me.

Houve ainda as que foram cuidadas e demoradas. Para saborear. Para a versão de Song to the siren de Tim Buckley, cairam luzes do tecto e David ilumou-se com um projector. A devoção à década de oitenta foi escrita com uma fulgurante, e muito bem recebida, passagem por Video killed the radio star à mistura com The eighties e, para homenagear a década de 90 ou anos mais recentes, David sentou-se ao piano e cantou com um tom fúnebre «as músicas que costuma ouvir na rádio». Assumiu o papel de Spice Girls e cantou If you wanna be my lover, foi Britney Spears e interpretou Toxic, vestiu-se de Nelly Furtado e transformou-se em Maneater, e acabou com aquela que ele diz ser uma «das melhores músicas que tem ouvido» na pequena caixa, Umbrella de Rihanna.

Pelo meio, os webisódios iam marcando primeiro, segundo, terceiro e quarto acto. Sempre contando bocadinhos de David, nem sempre o David músico, de vez em quando o David revivalista ou o David menino.

A passagem da noite foi, sem margem para dúvidas, a encenação do seu sonho de ser agente secreto. Sempre que se ouvia a expressão «agente secreto», a típica e curta banda sonora marcava o compasso. David diz que aquela música sempre o perseguiu mas, foi aqui, que passou também a perseguir todos os que estavam no Coliseu. O espectáculo deixou de ser apenas o seu para passar a ser interactivo. A prova: alguém grita «AGENTE SECRETO!» e, no palco, a banda acciona a música em questão.

As duas horas e meia acabaram com o retorno ao início, passando por Angel song (a primeira que escreveu) e fechando com Give a little respect e muitos corações de papel em voo pelo Coliseu.

Não foram precisas as pancadas de Molière para se perceber que este não foi apenas um concerto. No Coliseu dos Recreios, em noite de Sábado, David Fonseca encenou, viajou, chegou ao destino e fechou o teatro em grande estilo. Agora vai para outras bandas fazer o que prometeu num dos seus vídeos. Porque só lhe «resta recomeçar outra vez».

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 10:24
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1 comentário:
De Pedro a 13 de Abril de 2008 às 12:28
Uma excelente narrativa da viagem ao mundo do David :)

Só faltou mesmo o "faz-me um filho" gritado por um rapaz do público (not me!)

E tens toda a razão, ele tem todo o potencial para se aventurar na 7ª arte.

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