Quinta-feira, 27 de Março de 2008

O fascínio por Todd Haynes

Tenho de sublinhar que adoro Velvet Goldmine. Loucura cinematográfica ao melhor nível.

I'm not there demorou a chegar até nós mas chega a tempo de levar rasgados elogios ao (de novo) fantástico Todd Haynes. O homem que faz filmes com barbies e estrelas tresloucadas em cenários que não podem ser chamados de qualquer outra coisa que não poéticos. É "A" estreia da semana.

Acabadinho de sair do sítio do costume...

Músico folk, músico rock, bandido, poeta, reaccionário. Os fragmentos de Bob Dylan são tão icónicos quanto controversos. Não seria justo mostrar o contador de histórias sem atravessar um caminho tortuoso, sem mostrar todas as faces, sem todas as crenças. Em Não estou aí os retratos são seis. Não são retratos, são suposições. Os pedaços da cara de um homem que ganham forma depois de todos reunidos. Ele não está lá. Ou está?

Quando Todd Haynes enviou um esboço do que seria o seu filme para que um dos músicos mais relevantes dos anos 60 e 70 lhe desse o OK, o título que podia ler-se era «Não estou aí: Suposições num filme relativo a Dylan». O realizador nunca falou directamente com o seu sujeito mas, através do agente, soube que tinha permissão para continuar. Dylan tinha concedido uma aprovação inédita.

Haynes, já se sabia, não era homem para seguir frases direitas. Em Velvet Goldmine tinha conseguido as atenções de Cannes com um retrato musical muito próprio, politicamente incorrecto. Em Longe do Paraíso não se esqueceu de complicar relações e marcar sentimentos difusos.

Este I’m not there não é excepção e tem o peso acrescido de se atrever pelo mundo de uma figura a quem o termo «complicado» assenta como eufemismo.

Um comum biopic – o protagonista nasce, cresce, tem problemas – era uma ideia longe das metas do cineasta. Queria pegar aqui e ali, rondar a sua vida criativa e entrar casa adentro na sua vida real num filme que, de acordo com Haynes, nunca «iria ser um biopic linear». Queria antes «fazer explodir qualquer ideia pré-concebida em relação a Dylan em mil pedaços brilhantes». Prometeu e não falhou.

São seis as caras que Não estou aí nos apresenta. Woody Guthrie (Marcus Carl Franklin), o sonhador romântico, Jack Rollins (Christian Bale), a voz do protesto. Há Billy (Richard Gere), homem dentro e fora do exílio, Arthur Rimbaud (Ben Whishaw) , o poeta revolucionário e Robbie Clark (Heath Ledger no ante-penúltimo filme em que participou antes de falecer), o actor no auge da fama a tentar lidar com a família. Finalmente, o centro, Jude Quinn (Cate Blanchett), Dylan na sua fase de maior entrega, de despreocupação, de abuso.

Para interpretar este último, Haynes escolheu uma mulher porque julgava ser a única forma de «ressuscitar a verdadeira estranheza do ser físico de Dylan em 1966». Blanchett sobressai no meio dos demais e foi, por isso, reconhecida no Festival de Veneza com o prémio para melhor actriz. Quando se pergunta à actriz o que teve de fazer para encarnar Dylan diz que «riu muito, fumou muito e ouviu tudo aquilo que conseguiu arranjar».

Para além disso, Não estou aí tem a sorte de se movimentar no maravilhoso mundo de Todd Haynes. Pensado e filmado ao milímetro. Tudo muito orquestrado mas muito natural no resultado. De cenários nouvelle vague a preto e branco para viagens de comboio com vista para campos verdejantes. De câmara ao ombro e imagem com grão para imagens documentais de Martin Luther King. Pelo meio, um toque de alucinação muito ao jeito de Mike Nichols na soberana série Anjos na América. A miscelânea resulta tão bem como resultam as estranhas partes de Dylan em seis pessoas que não usam o nome do cantor, só pedaços da sua suposta personalidade.

Talvez a fita dure mais do que deveria. Tem cenas que poderiam ser encurtadas mas o respeito pelo ícone é tal que se nota a falta de coragem para cortar no sítio certo.

Tal como o nome da cidade onde mora Billy, the Kid, o Dylan ladrão de Richard Gere, também Não estou aí nos deixa intrigados. Da Ridlle (enigma) cidade para o enigma na tela, Não estou aí parte, reparte e baralha. Põe o espectador a criar o seu próprio Bob Dylan. Ele está e deixa de estar. Acredita no folk ou no rock. O que fica é um dos contadores de histórias mais enigmáticos de sempre.

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 12:39
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2 comentários:
De Torradaemeiadeleite a 27 de Março de 2008 às 12:46
Gostei da cara nova!! Parabéns!
De Quanto Mais Quente Melhor a 27 de Março de 2008 às 12:47
Obrigada. :) Volta sempre!

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