Quinta-feira, 20 de Março de 2008

Muito amor, muita cólera, pouco filme...

De Gabriel García Márquez já li 100 anos de solidão, Crónica de uma morte anunciada e Memórias das minhas putas tristes. De Amor nos tempos de cólera só vi a versão cinematográfica. Supondo que o estilo se mantém, esta adaptação é uma desilusão. Deixo-vos mais ideias.


É possível provar que há doença mais grave do que a cólera. O amor é o mais forte candidato ao título, aqui impondo-se à medida que os cabelos vão ficando brancos. É isso que tenta fazer a primeira adaptação ao cinema de uma obra de Gabriel García Márquez: explicar como o amor pode ser tramado durante anos e anos. Tenta, porque os engenhos terra-a-terra do autor foram trocados por um romance popular de perucas pouco credíveis.

Atravessamos cinquenta anos e dois séculos em Amor nos tempos de cólera. Assim o fez o autor colombiano mais reconhecido em todo o mundo que nunca tinha deixado alguém levar as suas páginas até ao cinema. Teve de ser Ron Harwood, argumentista nos créditos de O Pianista e O Escafandro e a borboleta, a fazer dele objecto cinematográfico. Na posição de realizador está Mike Newell, responsável por Quatro casamentos e um funeral e O sorriso de Mona Lisa.

No centro da cidade de Cartagena e de uma sempre presente epidemia de cólera estão dois jovens em paixão adolescente. Ele, Florentino Ariza (Javier Bardem), técnico que envia telegramas, poeta nos tempos livres. Ela, Fermina Dazo (Giovanna Mezzogiorno), donzela nobre rendida ao romance, filha de pai rico. O amor dos dois sofre o eterno estigma da diferença de classes e Fermina acaba por casa com o aprumado e bem parecido doutor Juvenal Urbino (Benjamin Bratt). Somos então levados ao colo por cinco décadas de encontros e desencontros, cartas e telegramas, acompanhando a decadência emocional dos protagonistas.

O protagonista, interpretado por Bardem (nunca mal mas com uma personagem desajeitada), jurou experimentar todas as mulheres que conseguisse por vingança de ter falhado o amor que queria na verdade. O eixo central da história é, no fundo, o dos encontros casuais do cada vez menos inocente, cada vez mais céptico, Florentino.

Quando a inspiração é demasiado boa, o risco de se desiludir na adaptação é muito mais elevado. Em Amor nos tempos de cólera, o destino acaba por ser esse. A escrita de García Márquez é colocada numa realidade que pretende agradar a todos, piscando o olho aos romances populares mas querendo, ao mesmo tempo, mostrar que é fiel ao autor.

O escritor acompanhou a evolução do filme, autorizou o argumento e convidou até uma das suas cantoras preferidas para fazer a banda sonora, Shakira. Mas a aprovação não deixa a fita à altura do seu talento provado. Falta profundidade às personagens e há uma acção demasiado preocupada com o avançar dos anos e menos com o que há para mostrar dos protagonistas. Até a caracterização falha a ajuda, com perucas brancas a cobrirem caras de pele jovem mal disfarçada com uma ou outra ruga. Metáforas e indecências que García Márquez tão bem sabe engendrar ficaram esquecidas nas sombras de um telefilme de flik flaks de amor.

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 15:25
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