Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008

Em semana de desaparecimentos, começamos por Gone Baby Gone

Uma supresa envolta em frenezim mediático. Aqui fica um artigo fresquinho acabado de sair do SAPO.

O Reino Unido recusou estreá-lo. Em Portugal a decisão foi delicadamente ponderada. Pontaria ou obra do destino, Ben Affleck fez um filme sobre uma menina raptada que, por acaso, se parece com Madeleine McCann. Mas, qualquer relação com o caso da criança britânica ou até com o da portuguesa Esmeralda é a mais genuína coincidência. Sem Maddie nem Esmeralda, o filme estreia hoje nas nossas salas e é uma obra a não perder.

Mal sabia Ben Affleck quando decidiu fazer uma adaptação do livro de Dennis Lehane (o mesmo escritor cuja obra deu origem a «Mystic River») que a sua estreia na realização correria tantas manchetes de jornais. O thriller traria ao grande ecrã a angústia de uma mãe desnaturada e da sua família que, quando confrontada com o rapto da pequena Amanda, se apressam para os cuidados de dois detectives privados com muito pouca experiência naquelas andanças de raptos.

Embora as coincidências com o caso Madeleine sejam apenas as das semelhanças flagrantes da protagonista com a menina levada da praia da luz e o simples facto de haver no enredo uma criança raptada e uma mãe em apuros, qualquer avaliação pela rama dirá que o circo mediático à volta do assunto não faz qualquer sentido. Tal como também não haveria qualquer sombra de nexo se a fita não passasse pelas salas portuguesas. Por duas razões: uma obra de ficção, nem que seja em pormenores, inspirar-se-á sempre em algum quadro representado no quotidiano e, como comprovam as estatísticas, os números de menores raptados aumentam a cada dia, fazendo deste um tema muito apetecível para ser transformado em ficção. Depois, porque venceu, com toda a justiça, uma série de prémios de associações de críticos (em Los Angeles, em Chicago e em Nova Iorque).

Depois de alguns adiamentos na data de estreia, «Vista pela última vez» acaba finalmente por estrear em Portugal e, mesmo que, a verificar-se o seu sucesso nas bilheteiras devido a toda a especulação que o envolve, o mais importante estará lá: muitas pessoas comprarão bilhete para ver um filme com um bom argumento, uma realização que surpreenderá todos os que assinaram a petição «abaixo Ben Affleck» e, o mais surpreendente, interpretações a bradar aos céus para que sejam reconhecidas em qualquer uma das cerimónias da temporada prémios.

Durante as quase duas horas de sessão o espectador é confrontado, não apenas pela narrativa com alguns twists bastante surpreendentes mas também por reflexões construídas de forma subtil que se atrevem numa das maiores dicotomias do cinema (que é simultaneamente uma questão existencial da sociedade): afinal onde se situa a fronteira entre o que está certo e o que é errado?

Desde a mãe toxicodependente que nunca deixa de ser mãe até ao conceito de justiça levado a um extremo, «Gone Baby Gone» (o título de origem) aborda de forma inteligentíssima algumas questões de fundo destes tempos hipócritas. Ben Affleck, que repete a acto de escrever para cinema (tinha-lo feito pela primeira vez em «O bom rebelde») e experimenta a cadeira de realizador, é uma surpresa com uma direcção atenta aos pormenores e a olhares menos óbvios.

Mas nada neste filme resultaria tão bem se do elenco constassem outros nomes. De Morgan Freeman a Ed Harris, que tornam a tarefa de repreensão impossível, à engendrosa e quase psicótica encarnação de Amy Ryan, que com ela recebeu uma nomeação para o óscar de melhor actriz secundária, tudo está próximo do academicamente perfeito.

A esta jornalista apetece terminar o artigo com uma menção em jeito de galardão. 2007 trouxe a Casey Affleck belas oportunidades para finalmente saltar até junto dos grandes. O seu detective Patrick Kenzie tem a contenção na medida certa e o sufoco que se lhe exigia. Começou na sombra da popularidade do irmão mas hoje está mais do que provado que o seu patamar a milhas do talento de Ben para a representação. Figura da lista de nomeações para o Óscar de melhor actor secundário pelo trabalho em «O assassínio de Jesse James pelo cobarde Robert Ford». Provavelmente vai perdê-lo para Javier Bardem em «Este país não é para velhos» mas, por este detective em «Vista pela última vez» e pelo cobarde que matou Jesse James, Casey abriu caminho para poder ser o próximo Philip Seymour Hoffman, o eterno actor secundário que um dia se tornará o leading man.

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 11:21
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