Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008

O obrigatório Sweeney Todd: Visão apurada do gótico e do gore

Se alguns acreditam que Sweeney Todd existiu realmente e que matou 160 pessoas na Londres do século XVIII, a grande maioria não tem dúvidas de que é uma personagem fictícia. O homem que afinal não terá instalado a sua cadeira em Fleet Street nem terá usado as suas lâminas de prata nos finos pescoços dos clientes, chega agora ao grande ecrã pela mão de Tim Burton. O cineasta faz renascer o sangrento barbeiro londrino e prova que ele continua a fazer jorrar litros de sangue como ninguém.

Apareceu pela primeira vez no texto «The String of pearls: A romance». Cresceu para ganhar forma como peça de teatro, foi adaptado para a televisão e ganhou lugar no cinema. Mas nada levaria o nome Sweeney Todd tão longe como o musical de Stephen Sondheim o fez. O compositor, com a proeza de ser o único americano a ter vencido um Óscar, um Tony, um Grammy, um Emmy e um Pulitzer, pôs o espectáculo em cena durante anos e, hoje, ele continua a ser adaptado pelo mundo fora. Mesmo que pouco mais se conheça, não há quem não saiba que Sweeney Todd é um terrível barbeiro assassino.

Tim Burton, já se sabe, tem uma relação profissional com Johnny Depp desde Eduardo Mãos de Tesoura. Os dois assumem a confiança mútua e o actor já disse por várias vezes que não tem medo de entrar no estranho mundo de Burton porque sabe que nunca parecerá ridículo, mesmo que as personagens sejam as mais bizarras.

O cineasta partiu para a aventura de juntar ao nome do barbeiro mais famoso do mundo o seu imaginário e os «seus actores». A saber, o amigo Depp e a mulher Helena Bonham Carter. Ofereceu-lhe o papel de Benjamin Barker, aliás Sweeney Todd, e reservou para ela a neuroticamente apaixonada Mrs. Nellie Lovett. E a equipa triunfou.

Mas «Sweeney Todd» é um musical. Como seria ver um elenco que não canta a cantar, usando os atributos vocais com que veio ao mundo? A resposta revela-se pouco depois da estranheza inicial. As músicas são interpretadas de forma sangrenta quando precisam de o ser, de maneira mais doce (na medida certa) quando o ritmo assim o pede e com uma carga dramática pesadíssima, se o filme precisar dela para contar a história da vingança do barbeiro.

Porque a história é essa. A de um barbeiro que se quer vingar. Há quinze anos atrás, quando estava casado e feliz junto à mulher e à pequena filha, o também terrível Juiz Turpin (Alan Rickman) prendeu-o e quis roubar-lhe a esposa. Agora, de volta a Londres, segundo os protagonistas, o sítio mais inesquecível do mundo, o barbeiro bonzinho é um homem amargurado, com uma sede de vingança insaciável. Transformou-se, mudou de nome e prometeu matar os que o tramaram.

Instala-se na sua antiga barbearia, por cima do local onde a senhora Lovett faz as suas intragáveis empadas, recupera a sua antiga cadeira e, para que o seu braço fique completo, pega de novo nas suas lâminas.

Mas aquela que prometia ser uma pequena grande vingança, acaba por se tornar numa série de assassinatos com rios de sangue a escorrer e muitas gargantas esfaqueadas.

O realizador cria um cenário de luz escassa, muitos cinzentos e muito, mas muito, vermelho (alguns poderão lembrar-se das cores de «A lenda do cavaleiro sem cabeça»). As visões góticas que lhe são tão caras acolhem um gore necessário para não adocicar aquilo que se quer amargo.

O «Sweeney Todd» de Tim Burton, como tudo o resto na sua carreira, é imaginativo, atento aos pormenores e surge rejuvenescido. Na idade (os actores do musical rondavam a casa dos 50 ou 60) e na forma, o realizador fez a adaptação cinematográfica que qualquer musical sonharia em ter, sem nunca passar para lá do trágico nem atravessar para além da mágoa e do romance que é essencial à história.

O sempre irrepreensível Johnny Depp quase é ofuscado pela obssessiva encarnação de Helena Bonham Carter e Alan Rickman é um vilão com mal a sair pelos poros. Vale a pena não esquecer que nos créditos finais está ainda o nome de Sacha Baron Cohen. Ele é Pirelli, o concorrente de profissão de Sweeney Todd e protagoniza o lado cómico que se destina a aliviar o clima cortante de todo o filme. Na cadeira de Todd a lâmina é afiada, talentosa, perfeita. No filme de Burton a história repete-se.

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 15:16
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4 comentários:
De Knoxville a 31 de Janeiro de 2008 às 23:11
Este é imperdível. Ainda quero ir ver o Cloverfield antes (amanhã), mas antes de Domingo não me escapa mais um de Burton ;)
De Quanto Mais Quente Melhor a 1 de Fevereiro de 2008 às 13:57
Não percas!

Beijinhos :)
De RJ/KritiCinema a 1 de Fevereiro de 2008 às 18:34
Já se tornou num dos filmes da minha vida. É uma obra com uma paixão e intensidade como há muito tempo não encontrava numa fita.

Estou a trabalhar num artigo/artigos sobre ele que devo publiciar dentro de pouco tempo. É uma obra-prima tão grande que fazer uma "crítica habitual" não lhe faria justiça, principalmente tendo em conta o que passou a significar para mim.

Cumprimentos!
De Quanto Mais Quente Melhor a 1 de Fevereiro de 2008 às 18:58
Aguardo então por esse trabalho! :)

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