Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008

O que eu gosto da obra de Ang Lee na sua língua materna!

Na toca do inimigo, mesmo ao lado do alvo marcado. A rapariga do filme passa a mulher nas mãos daquele que ela e os seus querem matar. Ela é actriz, forçada a tornar-se espia. Em «Sedução, Conspiração» o difícil é perceber até que ponto o distanciamento persiste ou quando é que a razão se vai embora.

Em 1942, ela é a Sra. Mak (Tang Wei) mas, anos antes, numa China às portas da II Guerra Mundial, era a ingénua Wong Chia Chi. O seu pai tinha fugido para a Inglaterra e ela tinha ficado sozinha, meio perdida, à solta numa universidade desconhecida. Como caloira, conhece Kuang (Lee-Hom Wang), um dirigente estudantil que canaliza as suas ideologias para um grupo de teatro. O perfil inato de líder de Kuang move Wong Chia Chi a juntar-se às suas peças patrióticas. Os espectáculos escolares tinham agora uma nova vedeta cujo talento tinha estado escondido mas que se preparava para arrebatar o público…e servir causas maiores.

Este é o retorno do premiado Ang Lee à sua língua materna. Desde «O Tigre e o Dragão» que não voltava a usá-la. Cineasta a querer provar a sua versatilidade, fez de Eric Bana o Hulk e acumulou prémios com o amor dos dois cowboys em «Brokeback Mountain».

Mas, em 2007, decidiu adaptar a história sobre a conspiração de um grupo de estudantes chineses e sobre o seu plano para matar um colaborador japonês que a escritora Eillen Chan tinha deixado no papel. Lee quis torná-la também sua.

O realizador chinês é reconhecido pelas suas viagens intimistas, de intenso dramatismo, mas também pela sua câmara próxima, intrusa e crua. A mesma linha continua neste seu mais recente trabalho mas o que se conta neste filme parece sair-lhe de uma forma tão natural como se tivesse sido ele próprio a protagonizar o conto.

Ang Lee intrometeu-se nas cenas de sexo entre o Sr. Yee (o mítico actor Tony Leung cuja lista de filmes asiáticos é interminável) e a Sra. Mak, acendendo a polémica. Em muitas críticas se falou que as imagens mais quentes eram exageradas ou até ofensivas. Não se ficou por aqui e descobriu mais uma promessa do cinema asiático, a jovem actriz Tang Wei, que construiu uma personagem sofrida com um perfil que, na prática, obriga a actriz desdobrar-se até um estado de múltipla personalidade.

Criou, passo a passo, e compassadamente, uma história de espionagem com um contexto histórico pouco retratado no cinema que chega até Hollywood e com cenas tão bem pensadas que trazem à memória delicados quadros expressionistas. Não há como encontrar mau gosto em arte como esta.

De regresso à história, a protagonista torna-se amiga da mulher de Yee, membro da sua trupe de mahjong e, eventualmente, alarga o seu papel ao de amante do marido. O objectivo é tornar-se tão indissociável do alvo que seja tão fácil abatê-lo como a um rato numa ratoeira. Mas os dois vão seguir por caminhos que nunca tinham experimentado até que a actriz não consiga representar e o homem frio não se consiga afastar.

A espionagem é feita pelos melhores actores em cena e este jogo de sedução não é mais do que uma bem ensaiada peça de teatro. Ou é? Até quando conseguirá a actriz ser apenas uma representante do papel que lhe incumbiram se esse papel envolve a pessoa que o interpreta numa rede confusa entre emoções e relações?

Como o título em inglês avisa, o filme envolve luxúria («Lust») mas é preciso ter muito cuidado para não saltar até ao lado perigoso do jogo («Caution»).

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 15:12
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