Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2008

Jesse James: a decadência do ícone e do seu fã



E que a palavra decadência não vos induza ao erro de pensarem que eu não gostei do filme. Não só gostei como acho que alguém devia limpar o chão à passagem do Casey Affleck.

Foi apenas ontem à noite que consegui ver The assassination of Jesse James by the coward Robert Ford (para começar o nome mais inspirado desde há muito) e, ao contrário de muitos dos presentes da sala de cinema, que saíram a queixar-se eu saí rendida a duas interpretações larger than life. Tenho também a certeza de que, tivesse eu nascido nas terras do tio Sam, a minha devoção a esta obra seria ainda maior. Afinal, o cowboy Jesse James é um dos ícones mais emblemáticos da América. As suas fotografias correram o país, vista em estereoscópios ao lado das pirâmides de Gizé.

Também o filme de Andrew Dominik assume, em parte, este ponto de vista, como se a história narrada também fosse vista por nós, espectadores, através da estreita passagem daquele estereoscópio. Ponto positivo número um.

A fita acompanha Jesse James desde o auge até à máxima decadência de um homem que incorporara, ele próprio, o estatuto de lenda que todos lhe atribuíam e que, por essa razão, parecia crer ter poderes especiais sobre todos os demais. E todos os outro o temiam como se ele fosse uma quase divindade. A performance de um Brad Pitt maduro e compassado, que apostou produzir um filme arriscado. Ponto positivo número dois.

Depois, The assassination of Jesse James by the coward Robert Ford (e chegamos à segunda parte do título) é a prova máxima de que todos precisamos de fixar e seguir atentamente o nome Casey Affleck. Ele assume o papel do assassino que é simultaneamente o maior e mais obcecado fã do cowboy e aquele que mais o teme. Quer ser como ele. Quer tomar o seu lugar. Acaba por ser ele a matá-lo mas não recebe qualquer reconhecimento por isso. Entra apenas no túnel de decadência que o seu mentor já tinha percorrido. O actor por trás deste Robert Ford não tem qualquer vestígio de cobardia. É um actor em poderosa ascensão com uma representação digna de todos os prémios que lhe puderem oferecer. Ponto positivo número três.

O filme (uso a designação para não repetir o título), de facto, peca por ser um pouco longo de mais. Talvez precisasse de impor um ritmo mais corrido em alguns momentos. Mas, no final, dei por mim a pensar nas críticas que ia ouvindo das bocas dos que saíam da sala e a perguntar-me se este assassínio não passasse por um ritmo tão digerido e amargamente atravessado teria o mesmo poder de transmitir a dimensão da decadência dos personagens. É ela o centro e motor deste grande filmaço escondido atrás da designação western. Não o é. É antes um passeio obrigatório de representações sublimes.

Saquem da pistola e ameacem o senhor da bilheteira se necessário mas passem pelo cinema para o ver.
publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 19:37
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