Sábado, 27 de Outubro de 2007

Para fora do casulo

A opinião sobre uma das valentes estreias da semana chega com algum atraso justificado pela ausência desta vossa cara destas bandas.

Esta vossa cara regressou ontem (que é como quem diz hoje de madrugada) e traz-vos então algumas notas soltas sobre O Escafandro e a borboleta.

O corpo paralisado não o impediu de ver o mundo. O olho que deixou de ver não parou a sua imaginação. O ex-editor da revista Elle, Jean-Dominique Bauby, sofreu um acidente que o deixou fisicamente preso mas que não fez com que se resignasse. Sigam pelo olho de Bauby a sua história de libertação.


A imagem pouco nítida e intermitente tem a responsabilidade de abrir O escafandro e a borboleta. Se não sabemos ao que vamos, estranhamos mas, pouco depois, percebemos que estamos sentados para ver um filme que é também uma experiência sensorial.


Mais do que nos contar a história de Jean-Dominique Bauby, O escafandro e a borboleta guia-nos através dos olhos do protagonista (ou neste caso, através do olho e da mente). A viagem começa numa prisão interior mas evolui para um caminho de libertação, para uma aprendizagem de uma nova forma de vida.

E quem foi Jean Dominique Bauby? Vivia no glamoroso mundo da moda, rodeado por manequins, seda e caxemira mas, um dia, sofreu um inesperado acidente vascular cerebral que fez com que o tempo parasse para ele.


Foi em 1995, aos 43 anos bem vividos que Jean-Do acordou para um novo mundo. Despertou de um coma em estado tetraplégico e apenas com um dos olhos em funcionamento. Não andava, não se mexia, não falava. Apenas via e pensava ao mesmo ritmo.


É a tudo isso que assistimos sempre tentando reproduzir a forma como Jean-Do o terá experienciado. Da impossibilidade de dizer aos médicos «estou aqui! consigo ouvir-vos!» até à imobilidade total, o espectador parece, perante a forma como o realizador montou o filme, sentir parte do que lhe aconteceu.

Mas O escafandro e a borboleta é, mais do que a história de uma tragédia, um conto de libertação interior, sobre como é possível renascer para uma realidade alternativa e, ainda assim, cumprir aquilo a que nos propusémos.

Julian Schnabel, autor de Antes que anoiteça, faz questão de marcar o momento em que Bauby reconhece que tem de aceitar o seu estado mas que não precisa de se resignar, deixando de mostrar o exterior apenas pelo olho de Jean-Do e passando a oferecer outros pontos de vista ao espectador.


Ao vermos um Mathieu Almaric desfigurado e amarrado lembramo-nos muitas vezes de Javier Bardem em Mar adentro. Ao vermos Lembramo-nos da questão da eutanásia e percurso afunilado que os dois tiveram de atravessar. Mas aqui, o olhar é outro do que o do filme espanhol, mais íntimo e claustrofóbico mas igualmente poético e imaginativo. Antes de morrer, Jean-Dominique Bauby escreveu um livro apenas com um olho, imaginação e a ajuda de uma escritora que aprendeu a comunicar com ele. Quando terminou a tarefa a que se tinha proposto partiu.


A título póstumo este O escafandro e a borboleta adaptado ao cinema faz o que ele quereria. Mostra que um casulo pode ser sufocante mas que há sempre uma altura em que de lá sai uma borboleta.

publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 13:32
link do post | comentar

mais sobre mim


ver perfil

seguir perfil

. 86 seguidores

pesquisar

subscrever feeds

posts recentes

Em coma...como a Noiva de...

Estrelas de cinema na pub...

Ensaios de luxo

Uma visita com Walt

Desculpas e mais desculpa...

O Sítio das Coisas Selvag...

Trailer de The Lovely Bon...

Ela quase emigrou mas est...

arquivos

Janeiro 2010

Outubro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

tags

todas as tags