Sábado, 15 de Setembro de 2007

A respeito de Jolie e A mighty heart

Acho que sobre este vale a pena debruçarmo-nos. Acho que esta história merece que deixemos a sala de cinema e paremos para reflectir durante uns minutos. Quem sabe se poderá trazer uma saudável discussão entre amigos sobre as relações ocidente/oriente. Aqui ficam as minhas notas sobre A mighty heart publicadas no sítio do costume. Fevereiro de 2002. Carachi, Paquistão. Meses depois do 11 de Setembro, Mariane Pearl via o seu marido, Daniel Pearl, ser assassinado por um grupo fundamentalista islâmico. A história passou a livro, o livro passou a filme. Um filme que comporta o melhor trabalho de Angelina Jolie e um equílibrio notável que o torna realista, não heróico; um relato e não uma lição de moral. O contexto: Os Estados Unidos ainda ressacavam dos atentados ao World Trade Center. A atenção da opinião pública e dos média estava virada para as movimentações a oriente. Daniel Pearl era um dos muitos jornalistas designados para o tema e representava o Wall Street Journal, relatando os retratos do Paquistão. Procurava representantes dos governos, conhecidos terroristas ou aliados da Al-Qaida, investigava sobre as alegadas relações entre as duas partes e explorava as crenças de todas. Conhecia as pessoas, comuns, independentes de outras guerras, e contava as suas histórias. Lá, sob um ponto de vista diferente e regulado por valores muito próprios. No fim, seria sob o pretexto da sua própria crença (Daniel era judeu) que o seu rapto seria explicado. Um dia, saiu de casa para se encontrar com um líder de uma célula fundamentalista (um encontro que qualquer jornalista naquele terreno sonha em ter) e não voltou mais. De jornalista passou a instrumento para as intenções ideológicas dos raptores. Tornou-se a imagem de sacríficio americano. Em casa, Mariane Pearl, a mulher grávida de cinco meses, assistia ao desenrolar das investigações com uma racionalidade fora do comum. Poucas lágrimas, poucos momentos de desespero e uma frieza que parecia apenas espelhar a vontade de não se render às intenções dos homens que lhe levaram o marido. Chegou a admitir numa das entrevistas que concedeu para a televisão que era por isso que não vacilava. Não o fazia e muito menos no ar. A história de A mighty heart é, indiscutivelmente, interessante, premente e justifica por si só a passagem a filme. Não há quem não se identifique com o medo, nem quem não se apegue a uma narrativa que atravessa o dia-a-dia da política e das sociedades ocidentais. Vêmo-los de cá, eles vêem-nos de lá. Todos funcionamos segundo os nosso próprios padrões. Visualmente falando, Um coração poderoso não é o mais perfeito dos exercícios. Bem intencionado, quer imprimir realismo visual com a constante câmara ao ombro e o tom quase documental e resulta na maior parte das cenas. Pena que, em alguns cenários escuros e velozes, aquela técnica não ofereça ao espectador clarividência, mas sim, escuridão e confusão. A técnica de filmagem foi peculiar. As cenas foram rodadas sequencialmente, foi usada pouca maquilhagem e, sem poderem gozar de grandes intervalos, os actores passavam praticamente todo o tempo juntos no plateau. Diz Angelina Jolie que, na gravação do momento em que é dada a notícia sobre Daniel Pearl, seria impossível que todos não sofressem com isso já que tinham representado cada passo do episódio sem saltos no tempo. A câmara gravou e conseguiu passar ao espectador a credibilidade desejada. No que à narrativa diz respeito, é notória a condução por uma jornalista. São avaliados todos os lados da história, sem juízos de valor (dentro que parece aceitável, claro). Não há santos nem demónios. Há relatos. Verídicos retratos. É o espectador quem, em última instância, decide o que quer interpretar. História à parte, o grande trunfo do filme é Angelina Jolie. A actriz apresenta-se mais consistente do que nunca num difícil papel que, ainda por cima, se inspira numa figura viva: Mariane Pearl. É certo que a transformação física e a real gravidez da actriz ajudaram à entrada na personagem mas Angelina consegue dar-lhe a dimensão racional e o lado mais frágil com o realismo palpável que se pedia. Sem «ódio nem medo», tal como Mariane quis demonstrar. A mighty heart inaugura a temporada de Outono em Portugal entrando da melhor forma na lista de «filmes-que-têm-histórias-complexas-e-querem-ganhar-prémios». É uma pintura contemporânea com o que mais de actual há para dizer no que diz respeito a contos multiculturais.
publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 15:14
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1 comentário:
De Palavreadora a 28 de Setembro de 2007 às 14:28
Eu vi o filme. Mas, para mim, julgo ser justo dizer que é um grande filme, com a excelente actuação de Jolie, mas não gostei. Reconheço-lhe o mérito, a história interessante e dramática... mas não gostei. Não gostei daquela tensão dramática tão escura e tão profunda, e do facto de já saber que o pobre do homem não resistia, no final. Por isso e outras coisas, não apreciei tanto como julgava que a apreciar.
São gostos, presumo eu...

Beijinho*

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