Quinta-feira, 6 de Setembro de 2007

Os fantasmas de Goya: A Espanha de duas caras

Como já se tornou habitual em dia de estreias, aqui ficam as notas soltas sobre um dos filmes em cartaz. Andaram hoje pelo sítio que esta semana fez doze anos bem verdinhos.

Francisco de Goya y Lucientes. Espanhol, pintor de paisagens e artista do reino. Recriador de cenários dantescos quase censurados pela Inquisição espanhola mas que não andavam muito longe da imagem real. O filme de Milos Forman (autor de Voando sobre um ninho de cucos e Amadeus) liberta os “fantasmas” do pintor e os terrores de uma Espanha em grande agitação política, dividida entre a Igreja e as invasões napoleónicas.

Ines (Natalie Portman), a musa de Goya ( Stellan Sarksgaard) é detida pela Inquisição espanhola. Não é uma bruxa (como tantas não o eram), não cometeu qualquer ofensa (como tantos não tinham cometido) mas é acusada de heresia. Assim o era no país irmão do século XVIII. Acusações como “a ilustre senhora não comeu porco, logo pertence à herege classe dos judeus” eram o prato do dia e pareciam fazer todo o sentido para os altos responsáveis eclesiásticos. A família de Ines recorre à ajuda de Goya que, embora não fosse tido em boa consideração pela igreja, tinha amigos influentes (como o padre Lorenzo) e seria a única pessoa a conseguir tirá-la das masmorras. Tal como as primeiras pinturas de Goya, também a fita começa por ser colorida, burlesca e natural. No entanto, este retrato das paisagens, das tabernas e das famílias depressa dá lugar ao lado negro de uma Espanha amedrontada e oprimida, atenta a cada passo. Porque cada passo podia levar qualquer um ao “interrogatório” (a.k.a. tortura que levaria qualquer interrogado a confessar o que quer que fosse). A dirigir está Milos Forman. O nome é de peso e carrega o historial de nomeações para óscares e alguns outros galardões com Amadeus e Voando sobre um ninho de cucos. Aqui, regressa às reconstituições históricas detalhadas, oferecendo ao espectador personagens históricas de nome conhecido a cada momento (como tanto ele gosta). Há Goya, há o rei Carlos IV (Randy Quaid) e há uma rainha interpretada pela grandiosa Blanca Portillo. No entanto, a precisão e a beleza não chegam aos calcanhares do que o realizador conseguiu com a história de Mozart. Os figurantes não convencem e parecem tirar credibilidade à maioria dos cenários. Basta dizer que a atenção do espectador vai ser tomada da acção principal por várias vezes para se virar para as caras pouco credíveis que se passeiam nos arredores. No que diz respeito ao elenco, há nomes incontornáveis. Provavelmente os maiores responsáveis pela salvação do filme. Javier Bardem no papel de um padre que tanto se mostra moralista com pende, ele próprio, para uma heresia muito sexual. Stellan Sarksgaard como o melhor do filme, vestindo um pintor sensato e generoso que procura defender a sua inspiração maior. Natalie Portman cada vez mais revela a sua polivalência e, embora deixe que o seu duplo papel se revele exagerado, parece ganhar mais uma experiência interessante no seu curriculum. No todo, Os fantasmas de Goya acaba por ser desequilibrado. Quer contar um período muito longo na história e isso torna-o demasiado cheio de sub-enredos, sub-personagens e sub-cenários. Os personagens, ao quererem viajar até uns séculos atrás, acabam por se perder no tempo e por caricaturar em demasia algo que se devia revelar mais realista. Não deixa, contudo, de criar um retrato íntimo e interessante da arte e do pensamento de Goya, com direito a uma viagem pela sua obra e pelos seus males, e de pôr visível um país indeciso e hipócrita que se vendia ao que se lhe apresentava como mais benéfico.
publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 21:42
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