Quinta-feira, 26 de Julho de 2007

Em matéria de concertos…

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Ontem foi noite de Coliseu. Aimee Mann, voz dócil mas poderosa veio pela primeira vez a Portugal e mostrou-se satisfeita.

O recinto estava a meio gás, longe de esgotar, mas isso também aumentou a experiência que se queria intimista. Uma boa actuação com passagem obrigatória por temas de Magnolia que deixou a cantora, pelo menos aparentemente, com uma séria vontade de cá voltar.

Aqui há duas semanas tinha visto Nouvelle Vague na Casa da Pesca em Oeiras e, por isso, aproveito esta ocasião para vos dizer o quão divino foi o concerto. Deixo-vos um textinho que já tinha escrito sobre a dita noite.

Um lago como cenário. Um painel de azulejos como fundo. No palco, os Nouvelle Vague no seu estilo francês nostálgico-modernista levaram o público numa viagem por canções que a memória não apaga, mas que eles fizeram renascer.

Subiram ao palco de copo na mão, não o rockeiro copo de plástico com cerveja mas o mais requintado copo de vinho. São também eles requintados, delicados e, em alguns momentos, tresloucados. Os Nouvelle Vague actuaram na Casa da Pesca em Oeiras no âmbito do festival que se auto-intitula o «mais cool do Verão» (formalmente, o Cool Jazz Fest) e não desiludiram.

Em pouco menos de duas horas passaram pelos maiores êxitos, que já foram de outros mas de que eles se apoderaram e fizeram questão de reinventar, dando-lhes um novo fôlego. A assegurar a primeira parte tinha estado a estreante Patrícia Vasconcelos, num espectáculo muito cénico mas em que se notou ainda alguma insegurança. Em frente ao palco, o pai «babado» António-Pedro Vasconcelos assistiu atento aos passos da filha fazendo com que só os mais observadores dessem pela sua presença.

A atracção principal chegou por volta das onze da noite, pé ante pé, e pouco a pouco foi impondo a sua imagem bem formada. Os Nouvelle Vague mostraram-se espantados com o recinto cheio («Vocês são tantos!») mas não se deixaram intimidar, cumprindo a função com uma execução dificilmente criticável.

A banda francesa foi inicialmente formada por Marc Collin e Olivier Libaux e decidiu trabalhar sob um conceito bastante apelativo. Nos seus álbuns apenas encontramos covers de músicas dos anos 80, na sua maioria punk e new wave. Contudo, que não se espere uma versão colada à original. São reinvenções com um jeito de bossa nova que fazem renascer para um público mais abrangente muitos dos hinos da década mais rock de todas.

Ontem, sob um cenário romântico em Oeiras, a voz melancólico-doce de Melanie Pain abriu calmamente o concerto com Killing Moon (originalmente criada pelos Echo and the Bunnymen) e progressivamente foi ficando mais atrevida e menos racionalizada. Já chegamos a essa história...

A seu lado tinha Gérald Toto, um verdadeiro entertainer, talvez demasiado seguro de si mesmo, mas que ninguém pode acusar de não animar o público. Os dois foram alternando entre ritmos mais sensuais e, digamos que, politicamente correctos como Love will tear us apart, original dos Joy Division, e uma versão doce de Heart of Glass, celebrizada pelo ícone Debbie Harry, que ali foi entoada por todos os presentes. Para além das passagens menos acesas, mas não menos quentes, houve também espaço para aumentar a velocidade e quebrar regras com algumas frases picantes q.b. por parte da vocalista. Antes disso, vamos a uma pequena descrição.

Os Nouvelle Vague são uma mistura de influências bastante reconhecíveis. Melanie é uma espécie de Beth Gibbons (senhora dos Portishead) em cruzamento com Lou Rhodes (dos Lamb). Gérald é, ele próprio, uma mistura entre um Ben Harper em fase «adoro-exibir-os-meus-solos» e um Maxwell de voz efeminada que, embora nos faça reconhecer a vertente exibicionista, nos faz também render de forma ingénua e absoluta. Foi toda esta mistura entre saudosismo e modernismo de toque bem europeu que cativou a massa e que tornou o concerto de ontem numa noite claramente positiva.

É certo que quase todos os que ali estiveram eram fãs, ou porque conheciam as canções originais, ou porque conheciam as versões da banda em palco. Foi esse factor que possibilitou uns quantos coros de volume bem elevado e foi também ele que trouxe de volta à cena (por três vezes) uns Nouvelle Vague com muita dificuldade em abandonar a exibição e encerrar a noite.

Não houve quem se importasse com o «esta é mesmo a última, última, última» fingido de Melanie. Bastaram dois minutos para voltar para o «último último último» encore da noite fechado de forma poderosa com «Too drunk too f***» . A música que foi criada pelos Dead Kennedys já tinha sido tocada uma vez mas, a recepção tinha sido tal, com direito a perguntas atrevidas («Are you too drunk too f***?») e a gritos colectivos da palavra proibida, que os Nouvelle Vague decidiram interromper «I just can’t get enough» a meio e fechar com uma repetição.

Mesmo que banda e público não estivessem demasiado ébrios, o estado final não era o de sobriedade. Ali junto àquele lago de inspiração romântica não houve quem não tivesse ficado um bocadinho «tocado», mesmo que a causa não tenha tido qualquer relação com o álcool.

* Não esquecer que as fotos foram tiradas pela minha colega de trabalho, Vera Moutinho.

Mais uma nota de rodapé: Amanhã sigo para Sul, rumo a outro concerto que, não está de todo na minha lista de escolha musicais mas vai, quase de certeza, dar em episódio inesquecível. É desta senhora.
publicado por Quanto Mais Quente Melhor às 17:25
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